21/09/2009

Mal Waldron (1926-2002)


Pianista do bebop e do hard bop nascido em New York, bastante afeito às inovações da vanguarda, chegou mesmo a flertar com o free jazz menos inconsequente e com o post bop. Após estudos formais de piano e composição, Waldron inicia a carreira profissional em bandas de R&B, tocando também jazz com seu saxofone alto e música clássica ao piano, o que lhe fornecerá a espontaneidade eclética característica de um estilo introvertido e bastante pessoal, identificável desde os primeiros acordes ou na repetição insistente e iconoclasta de determinadas notas. Podemos afirmar ser um instrumentista único, intrigante e original, embora decisivamente influenciado por Thelonious Monk na utilização do silêncio e do fraseado propositalmente indeciso em algumas passagens. É enquanto cursa o Queens College que Waldron opta definitivamente pelo jazz. Em sua fase inicial, grava com Ike Quebec e, a partir de 1954, associa-se regularmente a Charles Mingus, sem que com isso deixe de estabelecer seus próprios conjuntos, ainda em meados da década de 1950. Suas gravações e apresentações dessa época são, hoje, verdadeiros clássicos do período, cuja qualidade pode ser aferida pelas gravações e arranjos que realizou para a Prestige em nome próprio ou para artistas do selo, como John Coltrane ou Art Farmer. No final da década, torna-se o pianista de Billie Holiday, acompanhando-a por cerca de dois anos e meio, até que, com a morte da genial cantora em 1959, passa a acompanhar Abbey Lincoln, enquanto produz seus próprios álbuns como líder.

Na década seguinte, coopera com diversos músicos de alta estirpe, como Eric Dolphy, Booker Little ou Max Roach. É nesse período que adoece seriamente, afastando-se da música por algum tempo. Somente no final da década de 1960, já restabelecido, é que Waldron resolve seguir para a Europa, fixando-se em Munique. É no velho mundo que grava o primeiro álbum da ECM e o quarto da Enja, auxiliando o nascimento de dois selos que se tornariam referências nas décadas seguintes. E, devemos destacar, embora Waldron tenha sido essencialmente um pianista do bebop, suas habilidades técnicas e seu senso de aventura permitiram-lhe incursões bem sucedidas até mesmo no free jazz - veja suas gravações, por exemplo, com Steve Lacy - e no post bop. Outra capacidade notável, encoberta de certa forma por sua monumental estatura de instrumentista, encontra-se em sua obra como compositor: diversas trilhas sonoras, balés e composições menores espalham-se pelo repertório do jazz, o que justifica não apenas seu sucesso no Japão, país que o acolheu com carinho e admiração, bem como a gravação do álbum Soul Eyes, em 1998, com John Henderson, Steve Coleman e Abbey Lincoln, um merecido tributo à sua contribuição para o jazz. Diagnosticado o câncer em 2002, Waldron continuaria tocando o piano até sua morte, em dezembro do mesmo ano.

Segue uma breve indicação de álbuns que considero importante conhecer:
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Mal - 1 - 1956 - Prestige OJCCD-611-2 - Primeiro álbum de Waldron como líder, conta com a presença estimulante do trompetista Idrees Sulieman e do saxofonista alto Gigi Gryce. O trabalho serve, antes de tudo, para demonstrar a capacidade de Waldron como pianista de pequenas formações típicas do bebop, no caso um quinteto, nos moldes determinados por Bud Powell ou Al Haig, embora revelando a influência nítida de Thelonious Monk, mas com estilo extremamente pessoal. Com Julian Euell (b) e Arthur Edgehill (d).
Mal/4 - Trio - New Jazz OJCCD-1856-2 - 1958 - Excelente oportunidade de verificar o estilo de Waldron na década de 1950. A formação em trio contribui para a exposição mais direta de suas idéias musicais, com o apoio sólido de Addison Farmer (b) e Kenny Dennis (d).
The Quest - New Jazz OJCCD-082-2 - 1961 - Embora tenha sido lançado algumas vezes sob o nome de Eric Dolphy (as), este álbum é liderado por Waldron, que conta com a colaboração excepcional de Dolphy e Booker Ervin (ts). O contexto é moderno para a época, apresentando temas elaborados e interpretações complexas, mas sem a elininação dos conceitos fundamentais do bebop. Com Ron Carter (cel), Joe Benjamin (b) e Charlie Persip (d).
Blues for Lady Day - Black Lion 760193 - 1972 - O álbum solo é um tributo a Billie Holiday, contando com a interpretação de nove temas relacionados à cantora, quase todos lentas baladas. Nas edições em CD, foram adicionadas duas faixas em trio (A Little Bit of Miles e Here, There and Everywhere), com Henk Haverhoek (b) e Pierre Courbois (d).
Hard Talk - Enja 2050 - 1974 - Boa oportunidade para se comprovar a capacidade de Waldron em associar-se a músicos de vanguarda, sem perder completamente os vínculos com sua linguagem fundamental, o bebop. Gravado ao vivo, este álbum apresenta quatro composições de Waldron e conta com a colaboração de Manfred Schoof (c), Steve Lacy (ss), Isla Eckinger (b) e Allen Blairman (d). Ouça aqui
a faixa título.
One Entrance, Many Exits - Quicksilver 4019 - 1982 - Felizmente, Waldron gravou muito e em contextos diversos, desde o bebop até o post bop, passando muitas vezes pelo intermediário hard bop. Este é o caso aqui, com a comportada e excelente companhia de Joe Henderson (ts), David Friesen (b) e Billy Higgins (d). São cinco composições de Waldron, mais o standard How Deep Is The Ocean, com generosos solos de Waldron e Henderson. Uma boa idéia do trabalho mais convencional que o pianista realizou nas décadas de 1980 e 1990, a par de suas incursões incisivas nos movimentos de vanguarda produzidos nessas duas décadas.

19 comentários:

Érico Cordeiro disse...

Mr. John Lester,
Quanta fidalguia - na elabração da resenha, na escolha dos discos (qualquer hora dessas sai uma postagem sobre o Mal 2) e da faixa postada.
Um grande pianista, herdeiro direto de Monk e Powell, com momentos verdadeiramente sublimes em sua carreira.
Abração!

Salsa disse...

Só não posso o último citado. A série Mal 1 até quatro é muito boa.
Grande pianista. Valeu, lester.

edú disse...

Teddy Wilson e Mal Waldron são reconhecidos como os pianistas favoritos de Billie Holiday .Waldron esteve por São Paulo na segunda edição do Chivas Jazz Festival em junho de 2000 num duo com saxofonista soprano Steve Lacy – ocasião - q em virtude de minha reconhecida ignorância - tomei conhecimento de sua vida e importante obra.Após o referido espetáculo tornei-me um declarado fã e ajuntador de alguns títulos de sua discografia.Permito-me destacar em sua discografia tb : Wheelin (1957), Impressions (1958),Up Popped the Devil (1973),Encounters(1984),Crowd Scene(1989).

figbatera disse...

Trem danado de bão, sô!

John Lester disse...

Prezados amigos, obrigado pelas gentis e informativas notas.

Vovô Acácio sempre dizia que o verdadeiro músico de jazz pode ser avaliado de várias maneiras e, uma delas, consiste exatamente em verificar se o elemento possui 'voz própria'. E quantos a possuem? Armstrong, Young, Hawkins, Lady Day, Tristano, Gillespie, Monk, Rollins, Coltrane?

São poucos, eu sei. É como vovó Tícia sempre dizia: o que faz de um cozinheiro um Grand Chef é 'a mão'.

Waldron é um desses trens de doido como diria Mestre Olney. Grande abraço, JL.

thiago disse...

piano bizarro

Vagner Pitta disse...

Bela menção e belas indicações, caro Lester! Aproveito pra deixar um link onde tbm falo desse peculiar pianista. Aos que são afeito à download na net, tem o disco The Quest lá para baixar. O disco The Quest é, pra mim, uma espécie de "clássico desconhecido": trata-se de um sexteto estelar que mostram inúmeras peculiaridades dignas de se observar.

http://farofamoderna.blogspot.com/2009/06/quest-mal-waldron-w-eric-dolphy-booker.html

Abraços a todos do Jazzseen!

John Lester disse...

Prezado Mr. Pitta, obrigado pela visita e pelas informações adicionais.

Grande abraço, JL.

F. Grijó disse...

Esse é dos grandes.
Pianista de mãos cheias.

Abraço

MaJor disse...

John Lester poderia me enviar seu endereço para meu email mariojaq@uol.com.br
Um abraço
Mario Jorge

bia disse...

delicia...

Andre Tandeta disse...

Mr.Lester,
parabens pela otima e informativa resenha.
Gostaria de dizer que os musicos de jazz que tem voz propria são muitos,alem ,claro, daqueles que o Sr. mencionou. Pra começar a injustificavel ausencia de Charlie Parker. Todos os grandes tem voz propria . Uma lista deles seria gigantesca e de tediosa leitura, basta pensar em algum grande musico de jazz e verificamos que sua voz é unica. Felizmente eles,os realmente grandes, são em numero bastante consideravel e isso é o que torna o jazz a sensacional musica que tanto apreciamos.
Grande abraço

John Lester disse...

Prezado Mr. Tandeta, concordo com suas admoestações. E, é claro, peço desculpas pela imperdoável não citação de Charlie Parker, sem dúvida 'a voz' do bebop, estilo que transformou o folclórico jazz em arte.

Grande abraço, JL.

Andre Tandeta disse...

Mr. Lester,
brilhante definição da contribuição gigantesca de Charlie Parker ao jazz.
Altamente recomendavel mas pra ir devagar que o "caldo é de sustança":
http://jazz.com/dozens/the-dozens-steve-coleman-on-charlie-parker
Artigo do saxofonista Steve Coleman sobre Charlie Parker,imperdivel.
Coleman analisa 12 performances de Bird. Não se deixe intimidar pela linguagem tecnica ,valera a pena o esforço. Ouvindo e lendo tudo fica muito claro. Não é um tratado tecnico do assunto ,é muito mais que isso. Como o proprio bebop:complexo mas nunca complicado.
Abraço

edú disse...

Um dos formais criadores do bebop tb era baterista, o infelizmente pouco citado, jamais por nós, Kenny Clarke.

John Lester disse...

É verdade Mestre Edù...

Quando estive no Minton's Playhouse, no Harlem, em 2007, lembrei de várias figuras que por ali passaram na década de 1940 e, entre eles, é claro, o genial baterista.

Senti um 'blues' e lembrei da Rua Pirangi, onde morei, no bairro de Olaria, subúrbio do Rio. Foi numa casa simples dessa rua que Pixinguinha compôs seus clássicos e recebeu os amigos, sem que quase ninguém percebesse o que se passava por ali.

Como dizia vovô Acácio: chorinho também é jazz.

Grande abraço, JL.

Andre Tandeta disse...

Edú e Mr. Lester,
mesmo sem ver atendido meu pedido de uma resenha sobre Alan Dawson,genial baterista com um brilhante curriculo mas muito pouco conhecido , fica a sugestão de uma sobre Kenny Clarke.
A esperança é a ultima que morre.
Mr Lester ,quem diria . Olaria, infelizmente , guarda pouquissima semelhança com a que o Sr. conheceu em sua infancia.
Abraço

edú disse...

Mano velho, seu pedido já foi atendido,em parte.Esclareço para breve.O jazz é inesgotável - para nossa sorte é beneficio - e continuaremos, com bastante modéstia e carinho - emoldurar novos e eternos personagens.Ontem estive batendo um longo papo com um baterista q é seu fã.Abraço ao JL e a vc do frio montanhes( agora 6º) de CJ.

Roberto Scardua disse...

Formidáveis, texto e música. Valeu Lester!