19/10/2009

Barrica

E nós gostamos de vinhos envelhecidos em barrica de carvalho Mr. Lester? Sim Mr. Scardua, nós gostamos muito do envelhecimento em barril. Não que não haja bons ou excelentes vinhos que não passam em barrica, mas temos de convir que, sem ela, muitos dos melhores vinhos do mundo não existiriam, como os grandes Bordeaux, Borgonhas, Barolos, Barbarescos, Brunellos, os grandes espanhóis e alguns dos melhores tintos e brancos do Novo Mundo. Mas então os vinhos brancos também podem se beneficiar com o envelhecimento em carvalho, Mr. Lester? Sim, podem sim, Mr. Scardua. Nada impede isso, embora alguns produtores entendam que, para manter a expressão da fruta, o vinho deve ser vinificado à moda antiga, em tanques de cimento, como ocorre com os vinhos produzidos por Telmo Rodriguez na Galícia. Sei, mas o que o carvalho faz exatamente, Mr. Lester? Bem, na verdade, a utilização do carvalho é uma arte, devendo ser cuidadosamente manipulada. Existe uma infinidade de tipos de carvalho, e os mais utilizados para acolher vinhos de qualidade são o francês, sutil e elegante, e o americano, intenso e com característico aroma de baunilha. Isso sem levar em conta a tostagem do carvalho, que varia em graus, de acordo com a intenção do produtor. Na verdade, além do envelhecimento propriamente dito, alguns vinhos sofrem fermentação em barrica, o que faz do barril de carvalho um instrumento (ressaltando as qualidades já existentes no vinho) e, ao mesmo tempo, um ingrediente (fornecendo novos sabores ao vinho). Interessante Mr. Lester. E como isso ocorre? Bem, como o carvalho é poroso, há uma pequena e controlada passagem de ar, o que promove uma série de reações químicas lentas e graduais, tornando o vinho mais complexo e fazendo com que os taninos fiquem mais macios e elegantes. Além disso, o carvalho fornece ao vinho seus próprios taninos, estabilizando a cor dos tintos e dando maior equilíbrio e concentração ao produto final. Que beleza Mr. Lester! Então é só colocarmos um vinho em carvalho para melhorá-lo, correto? Não é bem assim, Mr. Scardua. Não são todos os vinhos que se beneficiam com o carvalho. Para que um vinho vá ao barril, é necessário que possua estrutura e corpo suficientes para isso, sob pena de que o carvalho predomine, tornando o vinho desequilibrado. Como disse, a utilização do carvalho é uma arte, não devendo ser aplicada indiscriminadamente. Somente com sabedoria é que se determina que tipo de carvalho usar, a tosta, em que porcentagem, se o barril deve ser novo ou antigo e quanto tempo deverá guardar o vinho, de modo a torná-lo mais complexo, elegante e ampliando-lhe o potencial de guarda. Veja, por exemplo, o trabalho desenvolvido pelo australiano Chris Ringland em sua bodega El Nido, na árida região de Jumilla, na Espanha. É ali que ele produz o incrível e raro El Nido, um corte de cabernet sauvignon com 30% de monastrell. Trata-se de um tinto musculoso, quase mastigável, onde potência e exuberância são combinados com ótima acidez, o que o torna perfeitamente fresco e equilibrado, sem perca de concentração, complexidade e potencial de envelhecimento. Pois bem, este vinho é envelhecido 26 meses em barricas novas de carvalho, fato que certamente faz dele o que é. Vejam só! Não é esse vinho que Robert Parker considera um divisor de águas na região de Jumilla, Mr. Lester? Sim, Mr. Scardua. Parker atribuiu nota 99 para a safra de 2004 e 98 para 2005, afirmando que o El Nido é o melhor vinho que a região pode produzir, devendo ser provado para que se possa compreender sua qualidade. E esse som estranho aí no fundo, Mr. Lester, o que é? Um C melody sax? Exatamente, Mr. Scardua. Estamos ouvindo Daniele D'Agaro, saxofonista tenor italiano que também se aventura ao clarinete e ao C melody sax, aquele estranho saxofone em dó.
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Nascido em Spilimbergo, em 1958, começou a trabalhar profissionalmente aos 21 anos, integrando a Mittel Europa Orchestra, big band italiana formada por músicos convidados de várias nacionalidades e dedicada àquilo que se tem chamado de 'música improvisada', uma espécie de free jazz bem comportado, devidamente envelhecido em barrica. Após alguns anos em Berlin, Daniele parte para Amsterdam, onde vive desde 1983. Também envolvido com o jazz, trabalha com uma série de bandas holandesas, como J.C. Tans Orchestra e Sean Bergin's M.O.B., além de acompanhar a banda caribenha Sunchild, de Frankie Douglas. Ainda na década de 1980, forma o Lingua Franca Trio com o violoncelista norte-americano Tristan Honsinger e o contrabaixista holandês Ernst Glerum. Com os saxofonistas Sean Bergin e Tobias Delius, forma o Trio San Francisco, combinando elementos da música folclórica e do jazz no contexto da 'improvised music'. É nesse período que, além do saxofone, explora outros instrumentos, como o clarinete, a flauta e a concertina. Em 1991, participa do festival October Meeting, com o conjunto étnico da Itália oriental Val Resia e diversos músicos improvisadores. Em 1993, parte em turnê com seu novo grupo, formado pelo Lingua Franca Trio, além da cantora africana Mola Sylla, do especialista em computação e eletrônica Richard Teitelbaum, do percussionista Paco Diedhiou e da dançarina Issa Sow. Em 1996, viaja com seu novo projeto, Hidden Treasures, apresentando composições inéditas de Don Byas, agora em quinteto, contando com a participação do trompetista veterano Benny Bailey e do baterista Han Bennink. As composições de Byas foram encontradas por Daniele no Ducth Jazz Archive, em Amsterdam. No mesmo ano, retorna à Itália, fixando-se em Udine, onde forma um duo com o organista de igreja Mauro Costantini, interpretando obras sacras de Duke Ellington, música pós-gregoriana e, sempre, a tal música improvisada. Em 1998, sai em turnê e grava com o contrabaixista norte-americano Mark Helias. No século XXI, apresenta em Chicago mais algumas composições inéditas de Don Byas e, em 2002, grava em Cologne o álbum ao vivo Strandjutters, com Han Bennink (d) e Ernst Glerum (b), para o selo hatOLOGY. Ouça aqui a faixa I Wish You Sunshine. Entre 2002 e 2005, viaja pelos EUA, apresentando-se e gravando com seu quarteto, que inclui o baterista Robert Barry, que trabalhou com Sun Ra na década de 1950, o trombonista Jeb Bishop e o contrabaixista Kent Kessler. Desde então, Daniele tem gravado para diversos selos, como El Gallo Rojo e ArteSuono, trabalhado com músicos importantes como Franco D'Andrea e Alexander von Schlippenbach, além de desenvolver interessantes projetos, como a Adriatics Orchestra, o Tempest Trio, com o organista Bruno Marini e Han Bennink (gravando o álbum The Tempest, inspirado na obra de Shakespeare) e o trio formado com o trombonista Mauro Ottolini e o sanfoneiro Vincenzo Castrini, com os quais grava o álbum Gipsy Blue. Além disso, Daniele integra a prestigiosa The Globe Unity Orchestra, sendo eleito em 2007 e 2008 o melhor saxofonista italiano pelo Poll Top Jazz. Atualmente vem atuando com seu Wild Bread Quartet, com Mauro Ottolini, Stefano Senni e Christian Calcagnile, apresentando composições próprias, sempre na base da free improvisation. Gostei do som, Mr. Lester. Até estranhei o Bennink, bastante comportado com suas baquetas. Eu também, Mr. Scardua. Note como o saxofone parece um jovem tinto, sendo domado e moldado pelo contrabaixo, verdadeira barrica do jazz.

14 comentários:

Salsa disse...

Grande Lester! Sempre fazendo boas colheitas.
Deu até vontade de ir à Casa Bonita experimentar o vinho e ouvir o disco completo.

PREDADOR.- disse...

Esses caras se intitulam músicos de jazz e a primeira coisa que fazem quando gravam é tocar bossa-nova ou músicas que nada tem a ver com jazz. E, o sr. D'Agaro é um deles, uma mistura de Ornette Coleman com Jonh Coltrane(na fase "enceradeira" contemplativa). Arranje outra coisa p'ra fazer sr.Scardua. Sugestão: por que você não vai caçar um bode????

John Lester disse...

Mr. Scardua, meu prezado amigo, não se deixe intimidar pelas pontiagudas palavras vociferadas por Predador, esse nosso eterno algoz.

Faça como Mestre Salsa: apareça na Casa Bonita e saboreie um El Nido conosco.

Grande abraço, JL.

Érico Cordeiro disse...

Saúde, Mr. Scardua,
E Mr. Predador, que crueldade com o queridíssimo Trane - enceradeira contemplativa é designação mais apropriada ao Barrichello que ao saxofonista que encantou as estrelas.
Abração!!!

Roberto Scardua disse...

Caro Érico, obrigado pela visita e pelo apoio. São pessoas como você que me encorajam a continuar o confronto contra o Predador, nosso perseguidor tenaz.

Infelizmente Mr. Lester não permite nossa manifestação de apreço a outros blogs que não o Jazzseen, cláusula constante em contrato, vedando, assim, minha participação em seu excelente blog.

Abraço!

edú disse...

Caro Bob,

solicito sua permissão para ser meu porta voz e avisar nosso chefe q a de outubro foi encaminhada.Porém em forma a “little bit diferent”, dessa vez.Mas já esta disponível.Abraço.

Érico Cordeiro disse...

Seu Mr. Scardua,
Remember Charlie Chan.
Vou lhe dar uma dica, mas não conte pro Capitão Lester. Seguinte: você pode usar um pseudônimo prá visitar o JAZZ + BOSSA e se agregar à nossa confraria (pode ser Bob Scardallone, por exemplo).
E aí, nada de multas contratuais, nada de ações judiciais cobrando indenizações milionárias, enfim, esses pequenos problemas que podem advir de uma quebra ostensiva de contrato.
E Seu Mr. Edú, fiquei emocionado com as suas palavras lá no CJUB, no post do Mestre Raffaelli.
Saiba que a recíproca é mais que verdadeira, ok?
Abração aos dois!!!!

coimbra disse...

Predador, deixe o pessoal viajar em Sun, em Ra,em Lloyd, deixe o italiano tocar. Falando em italiano, Mr Lester, reafirmo minha admiração pelo Stefano Bollani, depois de assistir a um concerto dele, um piano que transcende o jazz e o jeito bop de tocar .

John Lester disse...

Prezado Mr. Coimbra, Diretor de Relações Internacionais do Clube das Terças, que grande prazer é receber sua visita.

Grande abraço, JL.

pituco disse...

hahaha...perdoem-me, sr.scardua, mas o comentário do 'predador' é piramidal...fase 'enceradeira contemplativa'...imagino um vídeo-promotion com o tema postado aqui...rs

dessa vez engrosso o coro do comentarista...apesar de não ser radical no quesito expressão artística.

obrigadão pela dica
abraçsons pacíficos

figbatera disse...

Ih! A "briguinha" aqui está boa...
Mas a qualidade da informação continua ótima!
Fico feliz de fazer parte da confraria de leitores do Jazzseen, do Jaaz&Bosa, do Quintal do Salsa, CJUB e muitos outros amants do jazz.(e do vinho).

figbatera disse...

Ih! A "briguinha" aqui está boa...
Mas a qualidade da informação continua ótima!
Fico feliz de fazer parte da confraria de leitores do Jazzseen, do Jaaz&Bosa, do Quintal do Salsa, CJUB e muitos outros amants do jazz.(e do vinho).

fabricio vieira disse...

caros,
muito bom descobrir esse espaço onde, vejo, também apreciam os sons mais free... Daniele D'Agaro é um instrumentista muito interessante e seus trabalhos com Han Bennink, Schlippenbach e Jeb Bishop (que é um dos maiores trombonistas free atuais e, infelizmente, está afastado com problemas auditivos...)merecem ser conhecidos.
voltarei mais vezes. se quiserem conhecer meu espaço, mais direcionado ao free, passem em:
http://freeformfreejazz.blogspot.com

um abraço,
Fabricio

John Lester disse...

Prezado Mr. Vieira, obrigado pela visita e pelas palavras de apreço e solidariedade.

Grande abraço, JL.