18/11/2006

Dêfte Paíf

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Enquanto os cientistas não chegam a um acordo se o universo está crescendo ou diminuindo, eu aqui com meus alfarrábios já concluí: tenho mais discos do que posso ouvir. É assim que vem aquela tal sensação fundamental de angústia de que nos falava o primeiro Heidegger, perfeitamente representada num pobre homem que observa desconsolado seus milhares de álbuns de jazz mofando pouco a pouco. Um absurdo realmente. Kierkgaard e os ácaros já nos alertavam para a angústia diante do abismo intransponível entre o finito e o infinito, abismo este sentido de forma mais radical pelos alérgicos. Até onde sei, nem Heidegger nem Kiekgaard possuíam discos de jazz, mas Sartre com certeza andou ouvindo Bird e Lady Day em suas noitadas com Simone. Para Sartre, o sentimento fundamental da vida não era a angústia, mas sim a náusea, ou seja, aquela coisa que o dedo que falta do Lula nos faz sentir quando ele diz que “precisamos de que” ou como diria Olavo de Carvalho: "Não quero me “alvorar” (falando presidencialmente) em profeta, mas acho que Louise, Lulinha e Lurian são o futuro deste país. Ou melhor: dêfte paíf." E o leitor mais ansioso já poderia se perguntar a essa altura da resenha: que vodka barata bebia Sartre? Ou ainda: o que esse papo furado tem a ver com jazz? Simples: depois que você lê No Fundo De Um Sonho: A Longa Noite De Chet Baker, de James Gavin, você percebe que a vida desse genial trompetista foi uma longa noite, uma longa noite repleta de angústia, náusea e jazz. Apesar de ter mergulhado no abismo, Chet teve oportunidade de amar, sorrir e percorrer algumas estradas velozes em seu conversível. Chegou mesmo a gravar com músicos brasileiros como Rique Pantoja e José Boto, conforme você pode conferir no Brazil Jazzseen, logo acima, à direita. E não faça nunca como Woody Allen que, após ouvir de Freud que a angústia não requer nenhum objeto específico para se manifestar, tentou o suicídio abrindo as janelas e fechando o gás.

8 comentários:

Danilo disse...

grande Wood:daí pra morte é um pulo. Em tempo: ele mora no térreo?

carlinhos marrom disse...

Ok, até que vc escreve direitinho Lester. Mas, concordemos: brasileiro, quando não faz na entrada, faz na saída. Que M esse tal de José Boto faz tocando ripenique com Baker. Isso sim é angústia!!!

figbatera disse...

Mas que preconceito... olha Marron (parente da Alcione?) os músicos brasileiros são ótimos e bastante respeitados lá fora; muitos já tocaram e gravaram com os melhores músicos do mundo. Uma ou outra participação pode não ter agradado - como essa do Boto não agradou a você - mas não generalize com essa coisa de "merda"...

figbatera disse...

Desculpe "Marrom" com "m"!!!

Rogério disse...

Mr.Lester,
Chet Baker sings...

bia disse...

Nada como ouvir o jazzseen as 4 da madrugada...

carla disse...

Chet Baker era gênio. Seu grande problema foi ter nascido branco e bonito. Isso causava muito desconforto e inveja entre seus "colegas".

Internauta véia disse...

Chet Baker, com ou sem repinique, é bom demais!!!