21/12/2006

O soul jazz e o materialismo dialético

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Até onde sei foi Robert Boyle quem introduziu a idéia de materialismo em nossas cabeças: em seu livro The Excellence and Grounds of the Mechanical Philosophy, de 1674, Boyle defende que toda a realidade é formada por corpos dotados de propriedades mecânicas expressáveis matematicamente. De lá pra cá, toda a filosofia se debate entre materialistas e idealistas. Corpo de um lado, alma do outro. Alquimistas e bruxos contra químicos e lógicos. Na verdade, essa coisa já incomodava a humanidade pensante há séculos, basta lembrarmos de Demócrito e Epícuro. Até mesmo o polêmico aumento salarial de nossos parlamentares pode ser abordado sob uma dessas duas óticas. Podemos compreendê-lo segundo uma manifestação do ‘espírito’ na dialética de Hegel ou através da ‘práxis’ no materialismo dialético de Marx (combinado com o materialismo histórico de Engel). Mas, resumindo a coisa toda a uma noção bem Lula, ou seja, elementar, o materialismo pode ser entendido como uma concepção de mundo segundo a qual todas as coisas, inclusive a alma, a mente e o espírito, se resumem à matéria e aos fenômenos materiais. Ok, eu concordo que essa pode ser uma visão um tanto fria do mundo, eu sei. Mas há muitas mentes saudáveis que concordam com essa idéia pouco romântica da realidade. Então eu me pergunto: como explicar a música de um Winston Walls? Dá para transformar em equações sua interpretação de Georgia On My Mind (ouça logo acima, no Gramophone Jazzseen). Como descrever através de expressões matemáticas o sentimento groove que existe em seu Hammond B-3? Alguns, como o próprio Boyle, recorriam a Deus nessas horas desesperadas. Em sua obra The Christian Virtuoso, de 1690, ele afirmava que a natureza é como um mecanismo de relógio, onde o funcionamento é determinado por leis divinas que, não obstante, podem ser compreendidas pela ciência dos homens. Sobre o funcionamento da alma, contudo, Boyle nunca chegou a nenhuma conclusão satisfatória. Sendo assim, viva o soul jazz!

9 comentários:

waltel disse...

Jazzseen também é filosofia!

thiago disse...

Naum entendi nada do texto mas o som e manero

Guzz disse...

beleza de som !

Guzz disse...

eu sempre tive uma certa "bronca" com organistas, mas Jack McDuff é sensacional

e geralmente ao lado de um organista tem um grande guitarrista, aqui foi diferente

Ana De Lucía disse...

Vc. se refere ao Lula, aquele da "evolução da espécie?"
Acho um sacrilégio este nome no mesmo texto onde se fala em GEORGIA ON MY MIND! MARAVILHOSA!

Salsa disse...

Prezados navegantes,
devo-lhes informar que o Big Boss John Lester defendeu uma tese sobre os fundamentos da matemática topológica e suas obscuras relações com a física quântica. Robert Boyle foi apenas uma entre centenas de referências por ele usadas, que remontam ao período pré-socrático e, pasmem, inclui até algumas inscrições rupestres encontradas na Austrália.

John Lester disse...

Sim, é claro que Mr. Salsa tem razão quanto à antigueza da idéia de materialismo (basta lembrar do atomismo grego). O que eu quis dizer é que, para mim, Boyle foi o primeiro a escrever a palavra 'materialist' num livro. Daí a origem do termo materialismo. Mas, como dizia Sócrates, tá valendo.

Salsa disse...

Esse é o cara! Grande Lester!

Anônimo disse...

uau! foi fundo!
é isso aí, sempre é bom pensar. o jazz é uma filosofia de vida mesmo, assim como o samba. toda a arte séria é. gostei