17/11/2007

Way down south in New Orleans: Jacques Gauthe

Ouvindo Mr. Marvilla falar em Paris, lembrei imediatamente de New Orleans, cidade fundada em 1718 por Jean Baptiste La Moyne, Sieur de Bienville. Duzentos e oitenta anos depois, estava eu pela primeira vez naquelas terras em forma de lua crescente onde, em 1724, promulgou-se o famoso Código Negro, legislação destinada a regular a vida dos negros na Louisiana, preocupada especialmente em evitar a mistura de raças, proibindo qualquer tipo de relação formal entre negros e brancos, seja através do matrimônio, seja do concubinato. Mas foi somente em minha terceira visita a Nórlins, em 2005, que tive o prazer de conhecer um francês naquelas bandas, o clarinetista Jacques Gauthe. Ele tocava no bar mais bagunçado que já conheci no French Quarter, um tal de Fritzel’s, no 733 da Bourbon Street. Escuro e apertado, os músicos espremiam-se uns contra os outros, enquanto os freqüentadores conversavam alto e bebiam algumas das cervejas mais geladas do quarteirão francês. O tipo de música que se ouvia, e até onde sei ainda se ouve, é basicamente o dixieland, com algum swing comportado. Após o primeiro set, perguntei a Jacques o que era dixieland afinal. Ele me disse que não sabia. Ele apenas tocava aquela música maravilhosa e ficava muito feliz com isso. Lembrava ter lido em algum lugar que, segundo o musicólogo Hans Nathan, o termo dixieland, significando ‘sul negro’, apareceu impresso pela primeira vez em 1860, na edição da canção Johnny Roach, composta por Dan Emmett. Outros autores atribuem o termo ao fato da região sul dos EUA ficar abaixo da linha de Mason e Dixon. Há quem diga, ainda, que a palavra se originou das notas francesas emitidas em New Orleans, chamadas dix (dez). O fato é que tudo indica que o termo dixieland surgiu na região norte, sendo usado para designar a região sul.

O termo dixie, por sua vez, era utilizado inicialmente para designar o negro do sul, passando, mais tarde, a ser utilizado como sinônimo de dixieland. O mais curioso é que essa origem nada tem a ver com o estilo de jazz denominado dixieland, uma espécie de versão branca dos estilos new orleans e chicago. Quando surgiram, os termos dixie e dixieland eram utilizados por compositores brancos de negro minstrels, estilo de música popular que atingiu seu ápice nas décadas de 1830, 40 e 50. Pintando o rosto com cortiça queimada, músicos brancos, como Dan Emmett, apresentavam nos teatros lotados composições que exploravam o lado mais patético e humilhante da vida e da cultura do negro caipira. As composições, embora elaboradas a partir dos fundamentos da música popular irlando-escocesa, eram recheadas com elementos característicos dos negro spirituals e das plantation songs. Somente cem anos depois a expressão dixieland passaria a denominar um estilo particular de jazz, também denominado de revival, nos anos 1940 e 1950. Terminado o intervalo, Jacques voltou ao seu banquinho e dilacerou mais uma boa meia dúzia de clássicos de New Orleans, além de uma homenagem ao seu grande ídolo e mentor, Sidney Bechet. Para o amigo visitante, fica a faixa Blues for Bechet, retirada do álbum Echoes of Sidney Bechet, lançado pela Good Time Jazz, em 1997, centenário de nascimento do mestre. O amigo Jacques nos deixou em 10 de junho (1939-2007).

Jacques Gauthe - B...


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  • 9 comentários:

    alberto disse...

    Já era hora de dar um espaço ao dixieland. Muito bom!

    SERGIO SÔNICO disse...

    E tome-lhe aprendizado!

    thiago disse...

    nórlins é sinistra

    PREDADOR.- disse...

    Bela dissertação sobre dixieland, sr.Lester. Os neófitos vão adorar.

    bia disse...

    Dixieland é a cara de Nova Orleans, eu adoro!

    augusto carlos disse...

    O Jacques tá na foto Lester?

    cd disse...

    Vocês conhecem o baterista Stan Levey? Postei um disco dez estrelas no jazzigo.blogspot.com (com Kamuka, Candoli e cia)

    John Lester disse...

    Augusto, ele é o 'forte' à esquerda.

    F. Grijó disse...

    Valeu, JL.
    É sempre bom dar uma passada pelo Jazzseen.
    E como diz o Sérgio: aprendizado nunca é demais.

    Abraço