29/06/2008

Kansas City - O Filme

Numa carreira com mais baixos ("Dr T. e suas mulheres", "Popeye") que altos ("Nashville","Mash") o diretor Robert Altman (1925-1996)aproveitou rara oportunidade, no biênio de 1995/1996, pra colocar um sonho em película. Homenagear, do seu jeito, com a câmera na mão e uma idéia na cabeça, o estilo de música que mais lhe apaixonava: o jazz. Kansas City (dvd Europa Filmes 116 min.) é a "assinatura" em fotogramas de Altman sobre esse tema é uma homenagem indireta a sua cidade natal.Situando-a como cenário e o ano especifico de 1934, a trama tem como pano de fundo as conspirações e maracutaias políticas (sugere alguma lembrança?) que a localidade respirava, pulsando ao som do melhor jazz que ebulia no planeta.Altman abriu mão de sua "persona" cinematográfica: elaborar um enredo fragmentado. Sem protagonistas, com dezenas de personagens em seu peculiar cotidiano ,que se enr edam em algum acontecimento coletivo (como a Guerra da Coréia em Mash ou a Semana da Alta Costura em Paris em Prét- à- Porter). Desta vez , ou, planejadamente, optou por uma estória linear já anunciada desde a primeira cena e que conduz todos os personagens como marionetes articulados sobre os mesmos "cordões" dramáticos. Para saciar a curiosidade e sem revelar o desfecho, a trama gira em torno do rapto da esposa de um poderoso político pela mulher de um inábil escroque - que foi, pego, quando tentava dar um passo "maior que suas curtas pernas". No elenco não figura nenhum nome de cachê de sete dígitos.Apesar de grandes atores e atrizes terem trabalhado com Altman pela tabela sindical,assim como fazem com Woody Allen. A vitima(Miranda Richardson),a seqüestradora(Jennifer Jason Leigh), o escroque (Dermot Mulroney) e, magistral, o chefão (Harry Belafonte), personagem desprovido de qualquer vestígio de escrúpulo que elabora reflexões e conjeturas que somente um indivíduo, nessa situação, tem serenidade e, até mesmo, sabedoria pra tanto, estão à frente do elenco. Mas a música, afinal, ela é a razão do filme, é o que conta. Uma banda toca no contexto ficcional no Hey Hey Club - local de fato existido em Kansas City. Músicos de todos os matizes, quase uma nata, compõem o grupo, veteranos: Ron Carter(b ac),Victor Lewis(bat), David "Fathead" Newman (mais próximo amigo e primeiro saxofonista dos grupos de Ray Charles - demonstrando sua versatilidade também no jazz)David Murray (sax), e os novatos, a época, Graig Handy, Jesse Jackson, James Carter (saxes), Joshua Redman(sax) - representando Lester Young "duelando" nos tenores com Handy numa cena, e com bom senso de não usar o chapéu de feltro de copa chata e de aba virada pra cima característico de Prez -, Nicholas Payton (tromp), Cyrus Chesnut (como Count Basie), Gerry Allen (piano), Christian Mc Bride (b ac), Don Byron (clarineta), Russel Malone e Mark Withfield (instrumentista que oscilou entre a carreira musical e a de corretor em um banco de investimentos em NY, que lhe paga, suponho, por seu "desaparecimento", ainda às contas) (guit) e Kevin Mahogany "encarnando" um saloon singer. Recheando cenas de pequenos trechos musicais com standards (Solitude, I Surrender,Dear, Moten Swing, Lullaby of the Leaves entre outros) executados de maneira respeitosa e absolutamente descontraída, como se a câmera inexistisse. Com a devida apreciação ao "repertório" que pereniza no tempo. A trilha sonora (Kansas City, selo Verve) em cd (excepcional ) - nem seria diferente - é nitidamente superior ao filme. A dica: assistir ao filme e aumentar o volume de forma generosa sempre que os trechos musicais surgirem. Neste roteiro, a essência foi escrita na pauta e empresta vida ao som das claves e notas. Para os amigos fica a faixa ( ) Ko Ko, de Charlie Parker, sob os cuidados de Christipher Hollyday (as) um dos maiores young lions da década de 80 - nessa gravação, de 1988, ele contava com 18 anos. Com ele estão Wallace Roney (t), Cedar Walton (p), David Williams (b) e Billy Higgins (d).

8 comentários:

John Lester disse...

Prezado Edù, obrigado por mais uma excelente resenha.

Grande abraço, JL.

internauta véia disse...

Tem como ouvir a faixa completa? Ou é apenas um incentivo ( grande!) para comprar o cd? Muito legal!
O filme, vou procurar na locadora!

bia disse...

tbm naun to ouvindo naun

thiago disse...

nocivo esse hollyday

Sergio disse...

"M*A*S*H*", "Nashville", "O Jogador", "Short Cuts, Cenas de um casamento", "Assassinato em Gosford Park"... Ô, Edu, parei a leitura quando vc introduz destacando a carreira de 'mais baixos que altos'. Concordar que os filmes 'baixos' são ruins, concordo, mas um sujeito que produz UM, unzinho só, desses supracitados é até pecado frisar a face b ruim do gênio. Daí que parei a leitura logo na introdução. Outra hora retomo de onde parei. Mas só pq foi o amigo Edu que escreveu! Senão........

Sergio disse...

"Cerimônia de Casamento", fazendo justiça.

abilio disse...

Concordo com o Sérgio, Altman deve ser lembrado por suas excelentes películas. As ruins são para pagar o aluguel.

Anônimo disse...

Queridos amigos, ninguém é príncipe na vida eternamente, como disse Pessoa.Altman tem excelentes filmes, medianos(uma refilmagem de bom interesse de "The Caine Munity") e um ou outro esquecível .Apenas citei uma carreira com certo desequilíbrio, mas de registros brilhantes.Agradeço às opiniões e aproveito pra recomendar leitura de “A Love Supreme”- A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane(Editora Barracuda) do jornalista Ashley Kahn - tópico de uma resenha no Jazzseen de autoria de Heidi Wittgensz na data de 13/01/08 .Kahn traça ,nesse trabalho,um retrato fascinante e apaixonado de Coltrane ,absolutamente complementar ao livro anterior do mesmo escritor:“Kind of Blue”– a História da Obra- Prima de Miles Davis(pela mesma editora)também já resenhado no Jazzseen por F.Grijó .Porém,com mais maior riqueza de informações e dois apêndices.O primeiro,referente ao lendário engenheiro de som Rudy Van Gelder e outro da criação do selo de jazz Impulse.Edú