21/07/2008

For Tommy

Grande parte dos ouvintes das progressões harmônicas do saxofone de John Coltrane em seu tema "Giant Steps" (tradução livre: passos de gigante), no disco de título homônimo, desconhece que o piano de Tommy Flanagan o auxilia a " dar sustentação às suas passadas largas". Tommy Flanagan, novamente, colabora em "Saxophone Colossus" a ratificar à afirmação que Sonny Rollins é definitivamente colossal como sugere o título do disco em que toma parte. Acompanhando, Flanagan faz a guitarra de Wes Montgomery soar mais inacreditável, ainda, conforme o título do disco de Wes, "The Incredible Jazz Guitar". Por essas tarefas, o pianista nascido em Detroit em 16 de março de 1930, já tem espaço garantido nos verbetes de jazz em letras maiúsculas. Entretanto, Flanagan manteve-se ocupado entre 6 2 a 78 trabalhando com Ella Fitzgerald. Quando Ella "coloria" seu canto com seus "scats singing" pelo mundo afora - a seu lado, trajando um imaculado smoking, Flanagan tomava parte como seu diretor musical e acompanhante nas teclas brancas e negras. Tommy Flanagan foi sempre indispensável, a qualquer tempo, não importando como, onde e quando. Flanagan pertenceu a uma geração constelar de músicos nascidos na cidade automotiva de Detroit, entre eles: Kenny Burrel(g), Barry Harris(p), Milt Jackson(vib) e os irmãos Hank(p), Thad(t) e Elvin(bt) Jones. Começou estudar piano aos 11 anos, abandonando seu primeiro instrumento (a clarineta). Aos 15 anos, já era pianista com direito a "acionamento de relógio de ponto" no Blue Bird, mais conhecido clube de jazz da cidade. Influenciado por Art Tatum, Nat King Cole e Teddy Wilson vai a Nova Iorque em 1956 pra ampliar seu mercado de trabalho e assiste de forma coincidente ao final do "reinado" de Charlie Parker, morto em 55. Assimila nessa experiência a linguagem do bebop de forma fluente, com mais relaxamento nos tempos e facilidade nos encadeamentos harmônicos e no desenvolvimento rítmico-melódico. Grava seu primeiro disco em 1958, em trio com Elvin Jones e Wilbur Litlle (b ac). À serviço de Ella, carimba seu passaporte em 16 anos de atividade semi-ininterrupta quase tanto quanto o de um diplomata das Nações Unidas. Essa atividade contribui pra aperfeiçoar sua versatilidade no American Songbook e no trato das pequenas obras-primas obscuras daquele almanaque musical. Sua perícia como acompanhante permitiu o refinamento de sua técnica com frases melódicas concisas nos solos,sem abdicar na prestação de segurança e destaque merecido a intérprete. Essa atividade, vantajosa no aspecto financeiro, provoca-lhe um hiato de vinte anos na finalização de seu terceiro disco. Em 1978, quando se recupera de um enfarte declara sua independência, reservando às suas participações como "sideman" (músico acompanhante do solista) a ocasiões bem remuneradas. Forma um trio estável com o baixista George Mraz com revezamento na bateria entre Al Foster e Kenny Washington. Inicia, assim, uma fértil discografia própria, a maior parte dela na forma de trios de base rítmica (bt/p/b), pelos selos Pablo, Timeless, Enja, Verve, Blue Note entre outros. Numa crítica sobre sua temporada no Village Vanguard em 1986, John S. Wilson, do NYT, escreve "Flanagan tem recursos pianísticos comparáveis a uma big band, mas a sabedoria em utilizá-los com sobriedade e espontânea simplicidade". Vencida e agonizante em virtude de uma severa diabetes que a obrigou amputação de ambas as pernas e por duas mal sucedidas cirurgias oculares que a deixaram praticamente cega, Ella Fitzgerald, em 1996, atenuava seu suplício ouvindo repetidamente o CD "Lady Be Good... For Ella"(94) - produzido por Flanagan com seu trio - e dedicado a dama do jazz. Mesmo nos momentos críticos, Tommy , morto em 16 de novembro de 2001, jamais deixou de estar a seu lado, de certa forma.
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13 comentários:

Pablo Antunes disse...

Parabéns pelo blog.

Visite o meu blog também:

http://jazzxxi.blogspot.com

O tema é o jazz do século XXI.

caio disse...

Beleza de resenha Edu.

Salsa disse...

Esse eu não tenho. Rola uma cópia?

Aluizio Amorim disse...

Salve, John Lester!
Este seu blog está supimpa. Vou linkar. Fico grato pela sua visita lá no meu bloguinho. Volta e meia também publico vídeos de jazz e bossa nova (da pura) e os comento. Haja tempo para tanta coisa para ser vista e lida na internet! Caramba, o dia tem apenas 24 horas, sendo que dessas se tem de descansar pelo menos umas 7 ou 8. Com a internet a sensação é que cada vez mais temos menos tempo!
Grande abraço do
Aluízio Amorim

F. Grijó disse...

JL, caro amigo, o show de João Donato está em meu blog.
Triste, cara. Não por ele nem seu quinteto, que é da melhor qualidade.
Mas o público é foda.

Apareça lá.

Abraço.

F. Grijó disse...

JL, caro amigo, o show de João Donato está em meu blog.
Triste, cara. Não por ele nem seu quinteto, que é da melhor qualidade.
Mas o público é foda.

Apareça lá.

Abraço.

Sergio disse...

John Lester, Uma dúvida que quero tirar com vc, é sobre o plágio de Juazeiro (Goanzagão e Humberto Teixeira). Vi sobre, no Manhattan Connection. A Denise Dumont, filha de Humberto, conta a história mas não diz o nome da música de Peg Lee que é a tal cópia perfeita. Tenho um monte de álbuns da Peg, provavelmente, a música, daí q gostaria de escutar, original e "versão" pra modo de comparar as semelhanças.

E, só mas uma coisinha: pelos velhos tempos... Poderias, por obséquio, dar-me a honra de um comentário na última postagem minha, um raro exemplar da obra de Bobby Timmons, "Sou Time"? Como digo lá, não é o meu melhor álbum de Jazz, mas certamente, o que mais revisito. Fico no aguardo.

Desde já, muito obrigado.

John Lester disse...

Prezado Edù, obrigado por mais uma resenha free lancer. Pena que o Jazzseen não tenha condições de contratá-lo como Redator Júnior I. Sabe como é, até que acertemos as contas com Mr. Salsa junto à Justiça do Trabalho, nada de contratações.

Aos demais amigos agradeço a acolhida, sempre desmedida em generosidade.

Assim que puder vou ao Sônico, conferir as novidades.

Grande abraço, JL.

Sergio disse...

Em tempo: distraio eu, por tabela distrai mr. Lester. O texto aqui é do Edu! Só percebi depois de ler o comentário acima. E tão ensimesmado que estava com a notícia "Peg Lee plagiou o rei do baião" que nem mesmo havia lido com a atenção merecida a resenha sobre Tommy Flanagan. Por falar nisso, que disco esse "Lady Be Good... For Ella". Obra prima, Edu, obra prima.

Mas a dúvida perdura: qual o título da música de Peg Lee que imita Juazeiro, quem souber, por favor...

Claro q já cruzei os nomes pelo Google, que nada esclareceu.

Pablo Antunes disse...

Obrigado pela visita.
Estou colocando o teu blog na lista dos meus favoritos.

Abraço.

Anônimo disse...

Prezados amigos, obrigado pela atenção às minhas palavras e também tomo a dolorosa função de informar a respeito da morte do saxofonista Johnny Griffin na tarde desta sexta-feira, dia 25, na França.Griffin estava com 80 anos e radicado na França há mais de 20 .Permanecia trabalhando e resistindo como uma das últimas figuras vivas célebres das fotos de Art Kane ,“Jazz Portrait Harlem 1958”,para a revista Esquire .A ocasião acabou se tornando a reunião dos mais importantes nomes do jazz da história dividindo o mesmo espaço físico (calçada,na pose fotográfica mais famosa).Aos 17 anos, Griffin já tocava com o vibrafonista Lionel Hampton entre o período de 45-47.Em 57, toma parte numa das formações iniciais do Art Blakey Jazz Messengers .Depois, entra no grupo de Thelonius Monk em 58.No início dos anos 60, Griffin forma um quinteto dividindo liderança com o saxofonista Eddie "Lockjaw" Davis de grande popularidade no mercado jazzístico em razão do dinâmico e incandescente som produzido pelo grupo. Em 63, seguindo às pegadas de seu colega de sax e amigo,Dexter Gordon e por problemas fiscais e pessoais se “refugia” na Europa.Fixando residência entre a Holanda e França .Tornando-se ,nessa fase, membro e principal solista da Kenny Clarke –Francy Bolland Band entre 67-72.Nos anos 70 grava pra diversos selos entre eles :Pablo,Inner City, Galaxy.Em 1978, retorna ao mercado americano do jazz .Nos anos 80 e 90 mantém constante atividade em turnês e gravações, inclusive na participação como protagonista de um documentário chamado “The Jazz Life Featuring Jonnhy Griffin”.Fiel a tradição de tenoristas do calibre de Coleman Hawkins,Don Byas,Ben Webster e Lester Young procurava, mesmo ao sax-tenor, proximidade à influencia de Charlie Parker na profusão de idéias, variedade rítmica e liberdade na exploração de todas as regiões do instrumento com velocidade e precisão tanto na condução lírica quanto mais livre.Tinha o apelido de “pequeno grande homem” pelo contraste de sua estatura em relação a sonoridade pessoal do saxofone. Dentre suas gravações podemos destacar : A Blowing Session (Blue Note 1957) - ao lado do trompetista de Lee Morgan e dos saxes de John Coltrane e Hank Mobley;Blowing Session Vo2(Blue Note 1957) com Coltrane,Eddie "Lockjaw" Davis,Clifford Jordan e John Gilmore;Live in Tokyo (Inner City 1976);Return of Griffin(Galaxy 1978);Griff and Lock (Original Jazz Classics 1978).Descanse em paz. Edú.

Anônimo disse...

Prezados visitantes, em virtude da morte de Johnny Griffin esqueci, quando escrevia,de registrar que Tommy Flanagan tem como acompanhantes no v�deo disponibilizado Peter Washington ao contrabaixo ac�stico e Lewis Nash na bateria.Ed�.

internauta véia disse...

Voltando ao Jazzseen,e encontrando resenha do Edú, só posso ficar contente! Resenha e comentário sempre muito bem abalizados, música de 1ª...Muito bom!