23/01/2009

Blu Blu Blu

Considerando a admoestação de nosso sábio correspondente em São Paulo, Mestre Edù, acerca da necessidade imperiosa de melhorarmos o nível dos pianistas comentados no Jazzseen, resolvi aquiescer e, em homenagem a Mestre Edù, falar hoje sobre MUHAL RICHARD ABRAMS (1930), um dos pianistas fundamentais do jazz. Espécie de filósofo, professor e historiador do jazz, Abrams é um dos mais importantes músicos do jazz de vanguarda. Toca piano, clarinete e, sobretudo, compõe e faz arranjos. Em 1961 funda a Experimental Band e, em 1965, colabora com a fundação (sendo seu primeiro presidente) da AACM, importante instituição multidisciplinar promotora do jazz de vanguarda e da cultura negra, sediada em Chicago. Seus trabalhos nunca esquecem as raízes do jazz e, aqui e ali, podemos ouvir suas referências desde o boogie-woogie de um Albert Ammons, passando pelo bop de um Bud Powell, até a livre improvisação de um Albert Ayler. Todas essas referências foram adquiridas durante sua carreira, iniciada tocando blues e aprimorada mais tarde com mestres do bop como Dexter Gordon e Marx Roach. Suas originais composições exercem grande influência sobre os músicos de vanguarda e não se limitam ao campo do jazz, tendo já produzido obras nos moldes clássicos (sinfonias, quartetos), algumas delas já interpretadas pelo Kronos Quartet. Abrams não se satisfaz com a mera demonstração de virtuosismo instrumental ou com a elaboração de composições gratuitamente complexas. Suas composições e arranjos estão repletos de tudo que é importante para o jazz e para a cultura musical negra. Infelizmente não disponho de todos os álbuns de Abrams, mas seguem aqueles que pude comprar e que já ouvi repetidas vezes, podendo recomendar sem medo para os amigos navegantes. 

Levels And Degrees Of Light – Delmark 413 – 1967 – Jazz de vanguarda bastante palatável pelo ouvinte iniciante graças à presença de belas referências ao blues, bop e free jazz. Além de piano, Abrams toca também sintetizador. Com Anthony Braxton (as), Maurice McIntyre (ts), Leroy Jenkins (vln), Gordon Emmanuel (vib), Charles Clark, Leonard Jones (b), Thurman Barker (d), David Moore, Penélope Taylor (v).

Things To Come From Those Now Gone – Delmark 430 – 1975 –Um clássico do professor Abrams. Destaque para a excelente faixa March Of The Transients, com o solo arrasador de Wallace McMillan (f, as). Com Edwin Daugherty (as, ts), Ari Brown (ts), Emmanuel Cranshaw (vib), Rufus Reid, Reggie Willis (b), Steve McCall, Wilbur Campbell (d), Ella Jackson (v).  

Sightsong – Black Saint 120003-2 – 1975 – Excelente trabalho em duo com o baixista Malachi Favors. Uma das obras mais acessíveis de Abrams, nem por isso menos original. Ideal para os ouvintes mais ligados ao hard bop que ao jazz de vanguarda.  

Rejoicing With The Light – Black Saint BSR 0071 – 1983 – Outro mergulho original nas tradições do jazz, essa obra extremamente eclética da década de oitenta ainda resiste a qualquer trabalho de vanguarda feito atualmente com big bands. Trata-se de uma obra em que Abrams restabelece novos rumos para seu trabalho de composição e arranjo, cada vez mais complexos e arrojados. Com Baikida Carroll (t, flhn), Vincent Chancey (frhn), Craig Harris (tb), Howard Johnson (cbcl, bs, tba), John Purcell (f, bcl, cl, as), Wallace McMillan (f, as, ts, bs, perc), Eugene Ghee (cl, bcl, ts), Marty Ehrlich (f, cl, as), Patience Higgins (cl, acl, bs), Jean-Paul Bourelly (g), Abdul Wadud (clo), Rick Rozie (b), Warren Smith (vib, perc), Andrew Cyrille (d), Janette Moody (v).  

The Hearinga Suite – Black Saint 120103-2 – 1989 – Nessa obra para big band, Abrams estabelece definitivamente sua competência como arranjador. Um clássico no formato, com os excelentes músicos Cecil Bridgewater, Frank Gordon, Ron Tooley, Jack Walrath (t), Clifton Anderson, Dick Griffin (tb), Jack Jeffers, Bill Lowe (btb), John Purcell, Marty Ehrlich (f, cl, ts), Patience Higgins (bcl, ts), Courtney Wynter (bcl, ts), Charles Davis (ss, bs), Dierdre Murray (clo), Fred Hopkins (b) e Andrew Cyrille (d).  

Blu, Blu, Blu – Black Saint 120117-2 – 1990 – Seu melhor trabalho para big band, dessa vez Abrams supera seus próprios limites, construindo um som agressivo e pungente de forma integrada e moderna. Por tudo isso, o álbum é considerado por muitos especialistas como o melhor de Abrams. Eu apenas dispensaria alguns dos interessantes assobios de Joel Brandon. Com Jack Walrath (t), Alfred Patterson (tb), Mark Taylor (frhn), Joe Daley (tba), John Purcell (f, cl, as), Robert De Bellis (cl, bcl, as), Eugene Ghee (cl, bcl, ts), Patience Higgins (f, cl, bs), David Fiuczynski (g), Brad Jones, Lindsey Horner (b), Warren Smith (vib, timp), Thurman Barker (d) e Joel Brandon (w).  

Family Talk – Black Saint 120132-2 – 1993 – Dessa vez o professor nos oferece um poderoso trabalho em menor escala, em sexteto com Jack Walrath (t), Patience Higgins (bcl, eghn, ts), Warren Smith (vib, timp, mar, gongs), Brad Jones (b), Reggie Nicholson (d, mar, bells).  

One Line, Two Views – New World 80469 – 1995 – A mudança de gravadora não alterou em nada a criatividade de Abrams. Faixas longas e inteligentemente elaboradas, porém nunca cansativas, demonstram que a imaginação do mestre não tem fim. Aqui, ao lado dos instrumentos usuais, Abrams traz uma mistura inusitada de acordeão, harpa, violino e muitas vozes declamando a poesia de Jayne Cortez. Com Eddie Allen (t, perc, v), Marty Ehrlich (bcl, as, perc, v), Patience Higgins (bcl, ts), Mark Feldman (vln, perc, v), Anne Lebaron (hp, perc, v), Bryan Carrott (vib, perc, v), Tony Cedras (acc, perc, v), Lindsey Horne (b, perc, v), Reggie Nicholson (d, perc, v). 

Por fim, deixo a faixa título Blu Blu Blu em homenagem a dois grandes amigos: Mr. Salsa (que recebe o solo de John Purcell no sax alto) e Pedro Nunes (que recebe o solo de guitarra de David Fiuczynski). Até!

12 comentários:

Salsa disse...

Maneiro o bluesão. Daqueles que dá vontade de tocar junto.
Valeu, Lester.

thiago disse...

blues nocivo

edú disse...

Lester, less.Eu não afirmei q o Bollani era indigno de citação nas(emprestando um termo q li recentemente) “enciclopédicas” páginas do Jazzseen.Falei q faltava uma empatia artística no q vi e ouvi.Todos temos maior ou menor empatia.Basta declarar minha especial dedicação à Errol Garner, George Shearing.Ao pianíssimo de Art Tatum, como a voz de Joe Williams q ocasionalmente não acrescentam maior destaque na sua preferência pessoal.Também – do meu jeito - não brado absoluta paixão por Charles Mingus, o q para alguns seria uma heresia.Então, nesse ambiente democrático e absolutamente livre – na minha opinião ,a maior virtude do blog - sempre obteremos novas e ricas contribuições de todos os matizes.Se minha atitude contribui para q o Jazzseen colocasse o maior número de posts dos últimos 11 meses no mês de janeiro aguarde pra breve uma ligação DDD ás 3:15 da manhã.E a cobrar, inclusive.Abraço.

edú disse...

JL, a revisão deixou passar o Marx no lugar do Max Roach.Afinal, jamais abdicaremos de nosso caratér enciclopédico(rs,rs,rs).

John Lester disse...

Prezado Edù, quando entramos no Village ou, vá lá, no Smalls, sabemos que estamos em casa. Almas afins se reconhecem, você sabe.

Lembrei disso porque, da última vez que estive no Smalls, em 2007, colocamos alguns italianos falastrões para fora do clube. Os que ficaram, ficaram calados, ouvindo os músicos criarem música instantânea, ou seja, fazendo jazz.

E obrigado pela dica. Na velocidade da digitação quase sempre tropeçamos.

Grande abraço e aguardo sua próxima resenha.

JL.

edú disse...

Estará em suas mãos em horas.O Small´s é meu berço em Nova Iorque.Parabéns, se Nova Iorque é a cidade "that never sleeps", o Jazzseen prossegue inovando,questionando, polemizando(minha primazia) e antes tudo provendo a melhor informação qualitativa sobre sobre o jazz e literatura às 24 horas do dia.Basta de escrúpulos com a modéstia (rs,rs,rs)

Andréa disse...

nossa, que qualidade isso aqui!!!
maravilha!
blues nocivo é ótimo!!!!!

John Lester disse...

Oi Andréa, obrigado pela visita e pela gentileza.

Grande abraço, JL.

Vagner Pitta disse...

aaaf...esse post foi um petardo!!!

Muhal Richard Abrams é um dos vanguardistas mais sensatos da segunda fase do Free Jazz, o que mostra que, depois daquela turma dos anos 60 (Ornette, Dolphy, Paul Bley, Ayler e etc), nem tudo esteve perdido.

Além desses aqui citado, adoro o duo de Muhal com Anthony Braxton (Duets 1976) e Muhal com Leroy Jenkins (Lifelong Ambitions 1977)

Boa, Lester!

John Lester disse...

Ainda vou ouvir falar muito da dupla caipira Vagner e Edù. Faço questão de tocar o triângulo!

E viva o jazz!

Vagner Pitta disse...

opa, por que não?!!! se quer mesmo apostar que seu espaço vire um arraial em vez de uma jam, é só permitir que seu caríssimo colaborador, agora chamado Edu Pasquale, continue a mostrar o caráter que, com tamanha graça, vinha mostrando atravéz dos seus sempre ricos comentários!

Eu sei alguns acordes no violão e adoro uma viola caipira, vc entra com o triângulo e o Edú entra, meio que desrritimado, com o pandeiro: pronto, estará feito o repente!!!


hehehe...abraços meus amigos Edú e Lester! Minha intenção é apenas - ou pelo menos seria apenas - fazer comentários que pudessem somar alguma opinião, informação ou dica aos posts de jazz. Mas também não perco uma oportunidade de um divertido "debate" extra-jazzístico. Continuo e continuarei com minhas "boas intenções" - até que o limite do bom diálogo seja esfacelado por algum insensato.

Um insistente Feliz 2009 a todos do Jazzseen!

LeoPontes disse...

Fantástico Blue.Vou inclui-lo nos meus treinamentos em trilhas.Não dá pra ficar sem tocar junto.

Abçs