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10/01/2008

A segunda chance

O destino não permitiu que o saxofonista Frank Morgan completasse seus 74 anos. Restaram 9 dias pra isso. Morgan, morto no dia 14 de dezembro, do apagar do ano que findou, foi o exemplo perfeito, no jazz , do sujeito que recebeu sua segunda chance na vida. Filho de guitarrista que acompanhava o ótimo conjunto vocal Ink Spots e nascido em Mineápolis, era um prodígio que vencia concursos de calouros desde a tenra idade. Primeiro, aos 7 anos, na clarineta, depois, a partir dos 10, no sax-alto. Com o divórcio de seu pais e sob tutela paterna assistiu a uma apresentação de Jay Mc Shann em Detroit onde destacava-se, no grupo, Charlie Parker. “Encontrei Bird após o show e disse a ele que queria aprender e tocar aquelas coisas que fazia”. Em 1948, com 15 anos, morando em Los Angeles, interceptou Duke Ellington, que o testou minutos antes de uma apresentação de sua orquestra no Shrine Auditorium. Passou com louvor à “prova de fogo”, e iria substituir o sax-alto, Johnny Hodges, numa de suas saídas da banda. Devido a sua minoridade, foi impedido por razões legais. Participante de concurso de novatos em “jams dominicais”, teve a honrosa companhia de outros calouros como: Billie Holiday, Dexter Gordon, Wardell Gray no Club Alabam. Por seu precoce talento obteve a oportunidade de gravar, em 53, na companhia de Milt Jackson e do baterista Kenny Clarke. Porém, ao mesmo tempo, iniciou severa dependência química (heroína e cocaína). “Pensava que o estilo de vida do músico de bebop agregava o uso da heroína”. Após comunicar seu hábito a Parker , que inicialmente o repudiou , colocando seu próprio exemplo, e depois , euforicamente, compartilhava agulha e seringa na aplicação da cocaína, Morgan desceu ao inferno das drogas. Com a necessidade diária, às vezes, de mil dólares, pra sustentar o vício, começou a traficar, cometer furtos e emitir cheques “frios”. Quando seu primeiro disco foi lançado, em 55, estava numa cela da penitenciária de San Quentin cumprindo pena, entre outros delitos, pela emissão de mais de 600.000 dólares de cheques “descobertos”. Entre “idas e vindas” do sistema prisional, e com postura assumida de não “entregar seus comparsas”, Morgan passou quase trinta anos de sua vida entre grades e muros. Viveu situações surrealistas. Em 62, encontrou o sax-alto Art Pepper cumprindo pena por posse de narcóticos. Organizaram um grupo, os dois e mais outros penalizados de San Quentin, recebendo “facilitações” como: cortes de cabelo, balas, maconha e até algum dinheiro. Eram retribuições pelos “tours” remunerados que a direção do presídio promovia entre turistas que tinham a curiosidade em saber como funcionava uma prisão. Eram recebidos com música e festa. Em 1985, a custo do uso prolongado da metadona e livre da custódia penal, decidiu recomeçar a vida. Organizou o retorno a sua carreira artística. Wynton Marsalis(t), Cedar Walton(p), Billy Higgins(bt), Mc Coy Tynner(p), George Cables(p) são alguns membros do aristocrático grupo de seus pares que surgiram a apoiar seu “renascimento”. Lançou bons, e , alguns, ótimos, discos pelos selos Contemporary, Antilles, Telarc, High Note, sempre com uma base melódica e rítmica impecável. Em sua ultima extravagância , em 87, participou de um musical, em circuito alternativo, sobre sua vida. O título, mais cretino possível, numa tradução livre: “Prisão que vestiu casaca”. No fim, essa iniciativa se tornou dolorosa demais. “Era difícil reviver experiências , todas as noites, de violência e morte que assisti nos anos que fiquei preso”. Em 98, sofreu um derrame , superando a maior parte das seqüelas. Quando encerrou uma excursão pela Europa , em 2007, recebeu a notícia do câncer no colón. Viveu apenas um mês depois disso. Já havia agarrado a chance que merecia. Para os visitantes fica a faixa Billie's Bounce, retirada do álbum Yardbird Suite, gravado em 1988 para a Contemporary. Com Frank estão Mulgrew Miller (p), Ron Carter (b) e Al Foster (d).

07/02/2010

Vee Jay - Gratius ex ipso fonte bibuntur aquae

Fiquei extremamente comovido quando, ao telefonar para Lester, ouvi do outro lado da linha: gratius ex ipso fonte bibuntur aquae. Isso foi depois de confessar-lhe que estava inconsolável: afinal, havia inutilmente procurado informações sobre o selo Vee Jay em duas respeitáveis fontes: 1) The New Grove Dictionary of Jazz, volume único publicado em 1994 e 2) Glossário do Jazz, 2ª edição, 2009, escrito pelo amigo Mário Jorge Jacques. Como último recurso, estava ali, aguardando que Lester pudesse trazer alguma luz sobre tão obscuro selo. Sim, a Vee Jay Records havia sido a maior gravadora criada e administrada por negros até o surgimento da Motown. O nome é fruto das iniciais do casal Vivian Carter e James Bracken, que a fundaram em 1953, em Gary, Indiana. Vivian era disc jokey da WGRY e James era proprietário de uma bem sucedida loja de discos. Ambos sentiam a ausência de uma série de artistas talentosos no mercado fonográfico e decidiram alterar essa situação: com US$500.00 obtidos numa loja de penhores, iniciaram aquela que seria uma das maiores gravadoras negras dos EUA. Suas bases foram solidamente firmadas nos estilos blues e rhythm and blues, contando com artistas como Jimmy Reed, Eddie Taylor, Billy Boy Arnold, Snooky Pryor, John Lee Hooker, Big Joe Williams, Floyd Jones, Pee Wee Crayton, J.B. Lenoir e Elmore James. Com o passar do tempo, começam a gravar também músicos brancos, além de ampliar seu repertório com álbuns de soul, pop, jazz, gospel e rock n’ roll. Entre seus artistas principais, vale destacar os grupos Four Seasons e The Beatles.

Quanto ao jazz, a Vee Jay gravou artistas como Gary Bartz, Bunny Berigan, Benny Carter, Paul Chambers, Arnett Cobb, Tadd Dameron, Buddy DeFranco, Eric Dolphy, Harry ‘Sweets’ Edison, Victor Feldman, Frank Foster, Wardell Gray, Bennie Green, Bunky Green, Eddie Harris, Louis Hayes, Earl Hines, Ahmad Jamal, Wynton Kelly, John Kirby, Toshiko Akiyoshi, Bill Marx, Big Jay McNeely, Jay McShann, Lee Morgan, Sam Most, Wayne Shorter, Sonny Stitt, Frank Strozier, Art Tatum, Leroy Vinnegar, Baby Face Willette e Lester Young. Infelizmente, a comunhão de problemas familiares, financeiros, administrativos e judiciais terminou por levar ao fechamento do selo, em maio de 1966, mês e ano em que John Lester nasceu. Apesar disso, em meados da década de 1970 a Vee Jay relançou alguns álbuns de seu catálogo e, mais recentemente, alguns selos têm feito o mesmo, como é o caso da Blue Moon que entregou ao mercado uma série formidável de gravações da Vee Jay.

Para os amigos fica a faixa Jim Dog, retirada do álbum The Swingin'est, gravado em 1958, com Benny Green (tb), Nat Adderley (c), Gene Ammons, Frank Foster (ts), Frank Wess (f, ts), Tommy Flanagan (p), Ed Jones (b) e Albert Heath (d). Cético em relação às fontes secundárias, Lester recomendou-me ir direto à primária, onde a água é bebida com mais gosto, como afirmara Ovídio em seu Epistulae ex Ponto.

26/05/2011

Guy Lafitte - Blue and Sentimental

Infelizmente, somente em minha segunda visita a Paris tive o privilégio de conhecer o Sunside Jazz Club, certamente um dos melhores clubes parisienses de jazz tradicional, criado em 2001 especificamente para a apresentação de música feita com instrumentos acústicos. O clube que lhe deu origem, o Sunset, é mais antigo. Localizado no coração da cidade, entre o Forum des Halles e o Centre George Pompidou, o Sunset Jazz Club foi criado em 1983 por Michele and Jean Marc Portet, sendo o primeiro da Rue des Lombards, logradouro que conta com outros importantes clubes de jazz, entre eles o Le Baiser Salé e o Le Duc des Lombards. Tendo começado a funcionar como bar e restaurante, foi por insistência dos músicos que frequentavam o local que surgiu ali um clube de jazz. O repertório inicial do Sunset era dedicado sobremaneira ao estilo Fusion, sendo ampliado aos poucos, de modo que praticamente todos os estilos fossem acolhidos no estabelecimento. Não é à toa que por lá passaram músicos tão diferentes como Jaco Pastorius e Benny Golson ou Didier Lockwood e Tal Farlow. Além dos músicos locais, como Barney Wilen e Michel Petrucciani, já tocaram ali nomes como Steve Lacy, Frank Morgan e Lee Konitz.

Em 1993, Stephan Portet decide ampliar definitivamente os estilos de jazz tocados no Sunset, transformando-o num "club of all jazz". Desde então, podemos ouvir antigos e novos talentos apresentando-se na casa, como Roy Haynes, Bireli Lagrène, Richard Galliano, Jacky Terrasson, Laurent de Wilde, Ravi Coltrane, Dewey Redman, Truffaz, Julien Lourau, Sylvain Luc, Stefano di Battista, Paolo Fresu, Bojan Z, David Linx, Richard Bona, Magic Malik e muitos outros. O sucesso do clube pode ser avaliado também por seus frequentadores, entre eles Miles Davis, Herbie Hancock e Wynton Marsalis. Finalmente, no dia 13 de outubro de 2001, nasce o Sunside, dedicado aos instrumentos acústicos, ficando os amplificados a cargo do Sunset. Caso único no mundo: um só local com dois clubes anexos, apresentando dois shows todas as noites, sete dias por semana!


Naura Telles, fumando um cigarrinho no Sunside


Em homenagem aos velhos tempos, deixo a faixa Blue and Sentimental  , sob os auspícios de Guy Lafitte, saxofonista tenor francês nascido em 1927. Embora tenha iniciado a carreira tocando clarinete, em 1947 Guy toma o saxofone como seu primeiro instrumento, provavelmente após ouvir Coleman Hawkins tocando Body and Soul. Antes de sua morte, em 1998, Guy estabeleceu-se como um dos melhores saxofonistas franceses do Swing, formando seus próprios conjuntos ou acompanhando músicos que visitavam a Europa, como Bill Coleman e Buck Clayton. Além de ter participado como sideman de um bom número de gravações, Guy gravou também como líder, em especial para a Pathe, Columbia e RCA. Com ele estão Geo Daly (vib), Raymond Fol (p), Jean Bonal (g), Alix Bret (b) e Bernard Planchenault (d).

Durante minha primeira visita a Paris, eu não sabia, Guy fazia sua última apresentação no Sunset, morrendo poucos meses depois. 

   


Guy

11/01/2010

Jazz Movies - Parte 1

Bem, enquanto nossos computadores não voltam a funcionar adequadamente, resolvemos publicar algumas resenhas sem música. Já falamos aqui sobre alguns guias, pinturas e até mesmo quadrinhos de jazz. É hora de darmos alguma atenção aos filmes. Afinal, a imagem é elemento essencial para o jazz quando adotamos a opinião de que esse tipo de música acontece ao vivo. Na impossibilidade de estarmos em todos os lugares ao mesmo tempo, resta-nos apreciar o trabalho de abnegados que capturam performances, elaboram documentários, produzem especiais ou constroem filmes com e sobre jazz. Do imenso e disperso material disponível, optamos por discorrer sobre os dvd’s que apresentam shows, documentários ou especiais para a TV. Em seguida, traçamos breve roteiro sobre os filmes propriamente ditos, daquele tipo que passa no cinema e assistimos comendo pipoca. A maioria está aí no mercado e, com alguma pesquisa e sorte, poderão ser adquiridos facilmente pela internet. Começando pelos documentários, shows e especiais para a TV, vale destacar os seguintes trabalhos: 001) After Hours/Jazz Dance – 1998 – Rhapsody – Reunião de dois curtas que não têm absolutamente nada a ver um com o outro. O primeiro, After Hours, foi realizado para a TV em 1961 e nunca foi ao ar. Temos memoráveis momentos de swing com Coleman Hawkins, Roy Eldridge, Johnny Guarnieri, Milt Hinton e Cozy Cole. O outro, Jazz Dance, é um estranhíssimo curta onde estudantes bêbados podem ouvir um bom Dixieland sob o comando de Jimmy McPartland, com Jimmy Archey, Pee Wee Russell, Willie ‘The Lion’ Smith, Pops Foster e George Wettling. 002) Alberta Hunter: My Castle’s Rockin’ – 1992 – View Video – Embora não possa ser considerada prioritariamente uma cantora de jazz, mas de blues, o presente documentário de Chris Albertson é tão bem realizado que devemos indicá-lo. Ainda que somente para verificarmos o início da carreira dessa memorável cantora que, embora menina, parte de Memphis para trabalhar com King Oliver em Chicago. 003) All Girl Bands – 1993 – Storyville – A luta das mulheres para poder tocar jazz foi grande nas décadas de 1930 e 1940. É certo que muitos grupos não passavam de mero divertimento, mas algumas bandas formadas somente por mulheres tinham realmente talento. Nesse vídeo podemos conferir a reunião de diversos curtas relevantes, com destaque para os números da International Sweethearts of Rhythm (considerada a melhor banda feminina de jazz daquele tempo), da cantora e sapateadora Ina Ray Hutton e da orquestra de Lorraine Page, entre outros. 004) Antonio Carlos Jobim: An All-Star Tribute – 1995 – View Video – Ok, bossa nova não é jazz, eu sei. Mas como negar a influência de Antonio Carlos na música popular norte-americana? Nesse bom vídeo, embora já bastante debilitado, ouvimos o maestro em sua última grande apresentação pública, na companhia de Shirley Horn, Gonzalo Rubalcaba, Joe Henderson, Herbie Hancock, entre outros.

005) Art Blakey: A Jazz Messenger – 1987 – Rhapsody Films – Excelente documentário sobre um dos maiores bateristas do jazz. Entre uma jam e outra, vários depoimentos de ex-integrantes do Jazz Messenger, entre eles Benny Golson, Curtis Fuller e Wynton Marsalis, contam um pouco da vida e da importância desse grande músico. 006) Art Blakey and the Jazz Messengers: Live at Ronnie Scott’s – 2002 – Music Video Distributors – Entrevistas curtas não incomodam as excelentes performances gravadas em 1985 no clube londrino, quando o Jazz Messengers contava com Terence Blanchard, Donald Harrison, Jean Toussaint, Mulgrew Miller e Lonnie Plaxico. Embora não haja nenhum solo de bateria, é um bom vídeo. 007) The Art Ensemble of Chicago – Live from the Jazz Showcase – 1990 – Rhapsody Films – Lester Bowie, Roscoe Mitchell, Joseph Jarman, Malachi Favors e Don Moye formaram sem dúvida um dos mais importantes grupos do free jazz. Gravado em 1981, temos aqui um Art Ensemble of Chicago em excelente forma, deliberando livremente sobre idéias musicais ancestrais, como as march bands de New Orleans, o funk, o Dixieland e o Bebop. Talvez o melhor vídeo da banda. 008) Art Pepper: Notes from a Jazz Survivor – 1999 – Shanachie – Mesmo considerando que não há nenhum número musical completo e que na maioria deles Pepper fica falando, temos um filme honesto sobre a vida tresloucada desse grande músico, talvez o melhor saxofonista alto do estilo West coast. 009) Back to Balboa Highlights: The Kenton Discussions – 1991 – GOAL Productions – Foram quatro dias de comemorações pelos cinquenta anos da banda de Stan Kenton. A dedicação e o carinho com o líder ficam claros nas imagens e nos depoimentos de seus integrantes, como Howard Rumsey, Anita O’Day, Bob Cooper, Laurindo Almeida, Shorty Rogers, Bud Shank, Lee Konitz, Marty Paich e muitos outros.

010) Ben Webster: The Brute and the Beautiful – 1992 – Shanachie – Interessante coletânea de performances esparsas de um dos maiores saxofonistas tenores do swing. Há entrevistas com diversas figuras importantes do jazz, entre eles Harry ‘Sweets’ Edson, Milt Hinton, Jimmy Rowles. E o próprio Webster fala de sua trajetória, desde o aprendizado com Lester Young em 1929, o período em que trabalhou com Duke Ellington, até sua estada na Europa. 011) The Big Chris Barber Band – 2003 – Inakustik – O selo alemão lançou alguns dvd’s de shows gravados no Porsche Hot Jazz Festival, como é o caso desse vídeo com o excelente trombonista inglês e sua competente banda de dixieland, swing e blues. Diversão garantida para os amantes do jazz tradicional. 012) Bill Evans Trio: Jazz at the Maintenance Shop 1979 – 1995 – Rhapsody Films – Embora não possam ser consideradas as melhores, temos aqui boas performances do último trio de Evans, com Marc Johnson e Joe LaBarbera. 013) Birdmen & Birdsongs: Vol. 1 e Vol. 2 – 1998 – Storyville – Na verdade esse tributo a Charlie Parker, gravado em Cannes em 1990, saiu em três volumes, sendo o último um pouco mais curto que os dois primeiros. No Vol. 1 temos Red Rodney, Frank Morgan, Monty Alexander, Rufus Reid e Roy Haynes executando clássicos do bebop, com convidados eventuais, como Phil Woods e Jon Hendricks. No Vol. 2 é o quarteto de Phil Woods que domina a cena, além de alguns números com Jon Hendricks e com o trio de Larry Goldings. 014) Bix – Ain’t None of Them Play Like Him Yet – 1994 – Playboy Home Video – Certamente o melhor documentário já realizado sobre a vida do cornetista Bix Beiderbecke. Com gravações originais, fotos raras e depoimentos de amigos – inclusive o de uma ex-namorada – e músicos como Jess Stacy e Art Shaw, Brigitte Berman quase atinge a perfeição, não fosse a pouca atenção dedicada às gravações de Bix após 1926 e à sua atuação com Frankie Trumbauer.

015) The Blues – 1991 – Storyville – Alguns guias e críticos costumam incluir as cantoras de blues clássico entre as figuras mais relevantes do primeiro jazz. Para aqueles que concordam com tal abordagem, esse vídeo é fundamental. Ele começa com a única aparição de Bessie Smith em filme, o curta St. Louis Blues, gravado em 1929. A Imperatriz do Blues é acompanhada por James P. Johnson (p) e alguns integrantes da banda de Fletcher Henderson, como o clarinetista Buster Bailey. Outros destaques são os números com Mamie Smith (a primeira cantora de blues a realizar uma gravação) com a orquestra de Lucky Millinder e Ida Cox, acompanhada ao piano por seu marido, Jesse Crump. 016) Bobby McFerrin: Spontaneous Inventions – 1986 – A Vision – Gravado ao vivo em 28 de fevereiro de 1986 no Aquarius Theatre, em Hollywood, podemos ouvir e ver a estranha arte de Bobby, capaz de construir apenas com a voz o canto, a linha harmônica e a linha do baixo, como se simultâneos fossem. Sua destreza a capela domina o show, cujo único convidado é Wayne Shorter, que o acompanha na faixa Walkin’. 017) Boogie Woogie – 1988 – Storyville – Reunião de curtas memoráveis, o primeiro deles contando com ninguém menos que Albert Ammons, Pete Johnson, Lena Horne e o sexteto de Teddy Wilson, com Emmett Berry (t), Benny Morton (tb), Jimmy Hamilton (cl), Johnny Williams (b) e J. C. Heard (d). Os outros números são, em sua maioria, vídeos da década de 1940 e 1950, com destaque para os números com Meade Lux Lewis, Lionel Hampton e Count Basie, onde podemos ver Wardell Gray e Buddy DeFranco em ação. 018) Buck Clayton All-Stars – 1993 – Shanachie – Reunião de dois shows gravados na Suíça, em 1961, num total de onze números e uma hora de duração. Com Buck estão alguns veteranos da orquestra de Count Basie, o formidável pianista Sir Charles Thompson e, em alguns números, o cantor Jimmy Witherspoon. Indispensável para os amantes do swing. 019) Buddy Rich: At The Top – 2002 – Hudson – Trata-se de um dos melhores concertos de Buddy, gravado no Top of the Plaza, em Rochester, New York, em 6 de fevereiro de 1973. Embora não conte com músicos muito conhecidos, Buddy apresenta ótimas performances de clássicos como Love for Sale e uma versão de dezesseis minutos para West Side Story Suite, com dois solos magníficos desse que foi, sem dúvida, um dos maiores bateristas do mundo. Felizmente, Buddy gravou diversos vídeos, quase todos de excelente qualidade. Para os fãs, outra boa recomendação é Buddy Rich: The Lost West Side Story Tapes – 2001 – Hudson, gravado em 1985. 020) Calle 54 – 2000 – Miramax – Fernando Trueba apresenta um dos melhores tributos já produzidos ao latin jazz. Com a participação de Paquito D’Rivera, Eliane Elias, Chano Dominguez, Jerry Gonzalez, Gato Barbieri e Tito Puente, entre outros. Não bastassem os excelentes números musicais e a fotografia impecável, o dvd ainda traz como bônus o documentário History of Latin Jazz, com uma hora de duração. Essencial. Bem, é isso. Em breve retornaremos, com Jazz Movies - Parte 2.

25/07/2007

Liner Notes

Outro dia desse eu conversava com Francisco Grijó, professor, escritor e candidato bastante promissor a uma vaga no Clube das Terças, o mais famoso clube de jazz e corrida de saco da América Latina – seus integrantes nunca perderam nenhuma competição dessa modalidade num Pan-americano. Grijó não o sabia, mas, naquele exato momento, estava sendo avaliado minuciosamente por alguns sócios do clube, entre eles o sardônico Garibaldi Magalhães, figura sabidamente avessa a novas admissões ao clube. O assunto girava em torno de cinema, quadrinhos, John Coltrane e enlatados para televisão, entre estes os impagáveis Perdidos no Espaço e Nacionaro Kido. Segundos antes de ser novamente reprovado por Garibaldi, Grijó dá sua última cartada e nos conta a respeito de uma sombria sessão realizada entre Miles Davis e John Coltrane, da qual nenhum registro fora feito. Segundo Grijó, Coltrane estaria colhendo sementes de papoula em algum lugar exótico do leste europeu quando, a convite de Miles, teria retornado a New York e feito suas primeiras atuações com o futuro autor de Kind of Blue. Papo vai, papo vem, lembramos de Buddy Bolden, o cornetista louco de New Orleans que nunca gravou, e dessa nova mania japonesa de comprar discos pela internet. Você pode, agora, até escolher as faixas que quiser, no varejo, quebrando aquela saudosa imagem do ‘todo’ que os mais velhos costumam ter de um álbum de jazz. Sou do tempo em que adorávamos aqueles grandes lp’s, com encartes, lado A e lado B, plásticos protetores para o disco – que depois deveriam ser dobrados e inseridos no invólucro de papelão do lp de modo a não deixar a abertura exposta, evitando, assim, a contaminação com poeira, farelo de torrada e outras terríveis e minúsculas ameaças. Certa época estive às raias da loucura: ouvia um lp somente duas vezes: uma para ouvir mesmo; a outra, para gravá-lo em fita cassete, de modo a preservar o lp para a eternidade. Checkmate, da Pablo, com Joe Pass e Jimmy Rowles, foi o primeiro a receber esse tratamento vip, isto porque foi o primeiro lp gravado com tecnologia digital que adquiri. Grijó, já praticamente reprovado por Garibaldi – que, aqui entre nós, odeia Miles Davis –, foi salvo pelo gongo ao recordar dos adoráveis encartes que acompanhavam os lp’s, aquelas linhas saborosas que costumávamos ler enquanto ouvíamos o álbum. Uma delícia essas resenhas, todos concordaram. Foi então que, como que para aprová-lo definitivamente e nomeá-lo imediatamente como o mais recente sócio do clube, perguntei-lhe o que achava do encarte do álbum The Young Lions. Foi aí que Grijó escorregou: desandou a falar mal de Wynton Marsalis e sua turba de burocráticos asseclas. Garibaldi Magalhães, sem esconder um ar certo de satisfação entre os dentes amarelados, levantou teatralmente da cadeira enquanto dizia não poder mais compartilhar a mesa do clube com quem nunca leu a novela The Young Lions, de Irvin Shaw. Novela que, aliás, deu origem ao título do lp gravado em 25 de abril de 1960 por Lee Morgan (t), Wayne Shorter (ts), Frank Strozier (as), Bobby Timmons (p), Bob Cranshaw (b) e Louis Hayes (d). Garibaldi, quase sorrindo, disse mais: o autor da excelente resenha foi Cannonball Adderley que, já em 1960, nos alertava para aquilo que chamou de ‘glorificação da mediocridade’. Notem amigos, complementou Garibaldi, que Wynton Marsalis nem havia nascido quando esse álbum foi gravado, gargalhou. Grijó, tomando a admoestação de Garibaldi como um ataque pessoal explícito, partiu pra cima e, entre latas de coca-cola voando e xícaras de café rolando, conseguimos evitar que Garibaldi fosse completamente destruído pelo jovem e vigoroso candidato. Depois do boletim de ocorrência na 52nd DP, fomos todos ouvir The Young Lions na casa de Chico Brahma e a faixa escolhida para o amigo leitor ouvir foi That’s Right. Garibaldi passa bem e, prometeram os médicos, semana que vem estará em casa.