30/11/2007

150

É com grande alegria que anunciamos a chegada do mais novo colaborador do Jazzseen, Dr. Eduardo Spikeasy, mais conhecido como Edú. Para os amigos, segue sua primeira resenha para nosso regalo e aprendizagem: "Durante anos classificou-se as regulares reuniões realizadas na sede da Federação da Indústria de São Paulo (FIESP) em seu suntuoso e estranho prédio, que lembra uma pirâmide , na Avenida Paulista, como a maior concentração, por metro quadrado, do PIB (produto interno bruto) nacional. Era a avaliação à importância financeira dos empresários, membros dessa elite, participantes das reuniões e conselhos.No entanto, a poucos metros dali, menos de um km, e no mesmo bairro, num discreto ambiente, séria impossível poder calcular algum índice para a enormidade de talentos de jazz que se concentraram num espaço , até certo ponto exíguo (no máximo comportava 350 pessoas) num período um pouco maior que meia década. O local era a Alameda Campinas, 150, era a senha, como nos bons filmes de gângsteres como Scarface, de Howard Hawks (o original), para a entrada ao melhor clube de jazz, que a cidade de São Paulo conheceu e do país, desde que Cabral pousou seus pés na areia da praia. A conclusão é obvia: citem , por favor, um outro endereço e local onde se concentraram: Tom Jobim, Michel Legrand, Joe Williams, Carmen Mc Rae, Lionel Hampton, Billy Eckstine, Paquito de Rivera, Anita O Day, o casal Toshiko Akiyoshi e Lew Tabackin, Bobby Short, mestres do blues como Buddy Guy, Junior Wells e Alberta Hunter. Tudo partiu do princípio de um engenheiro, a semelhança humana, quase fiel, do personagem de “cartoon” Mr.Magoo, Henry Macksoud, porém com uma voltagem de raciocínio e sagacidade dos vencedores. Com menos de 50 anos e um verdadeiro selfmade man (tradução livre de empreendedor milionário) , Macksoud , já dono de uma maiores empresas de engenharia hidráulica do mundo, fixou idéia que a cidade de São Paulo, na entrada dos anos 80, necessitava de um hotel na medida em que a qualidade de seus serviços e recursos se estendesse ao sorriso dos recepcionistas ao abrirem a porta de entrada do ambiente, até a saída, com a bagagem do hospede sendo depositada de maneira delicada no porta-malas do táxi. Não economizou dinheiro nessa causa. E colocar um clube de jazz foi um dos itens inseridos nessa ,literal, empreitada. Seguindo a recomendação de seu filho Roberto, então gerente geral (amante de jazz e cinema , com uma discoteca pessoal na casa de milhares de discos), foi contratado como coordenador da boate ,denominada 150 Night Club, Armando Aflalo.
Esse personagem mereceria um capitulo a parte,basta defini-lo , sem exagero, como um dos 5 maiores conhecedores que já existiram no pais sobre jazz. Aflalo não amava simplesmente o jazz, ele viveu pelo jazz (take it easy JL). Com sua assessoria, estabeleceu que se formaria uma orquestra pra casa de treze figuras, sob a regência do sax-alto argentino, o bandleader Hector (Besignani) Costita, lendário personagem do jazz latino americano. Seguindo os mesmos padrões e exigências de qualidade que estabeleceu nos minuciosos detalhes da construção e funcionamento do hotel, adotou-se , também, na constituição da banda. Vinicius Dorin, saxofonista, Olmir Stockler (Alemão, um dos maiores guitarristas brasileiros de todos os tempos), Nailor Proveta (líder e ogiva cerebral da Banda Mantiqueira, provavelmente o musico popular mais completo do país) só pra citar alguns, foram membros desse “dream team”. E tocavam, antes e após as entradas da atração principal, para os casais (homem e mulher, registre-se) dançarem agarradinhos na pista. Prática colocada de lado, hoje em dia, e só exercitada em bailes de formaturas, festas de debutantes e festividades da terceira idade. Aos poucos foram “seduzindo” os artistas que aguardavam sua entrada, começando a exigir que passassem à participar da apresentação de alguns de seus ídolos. Ir ao 150, era um das poucas ocasiões em q podia vestir calças compridas, tinha menos de 10 anos, naquela época. Fui duas vezes , na companhia de meus avós, ver Joe Williams e Michel Legrand. Da primeira vez, lembro do sorriso largo de Williams passando entre as mesas, pedindo coro a platéia em seu clássico “Every day I Have the Blues”. Mas meus inocentes olhos , e a maioria absoluta dos homens feitos, estava hipnotizado com a figura de Christiane Torloni, a menos de três metros, aos vinte e poucos anos, insuperável. Na de Legrand, impressionei-me como um músico, feito mágico e sua cartola, poderia retirar uma canção, mais inesquecível que a outra. E todas elas de sua autoria. É melhor parar por aqui. O 150 não existe mais e grande parte desse elenco esta fazendo música em outro “ pedaço”. Só pra não esquecer: Frank Sinatra se apresentou num dos salões de festas do hotel. O 150 era pequeno demais. E Mel Tormé assustou Roberto, quando negociavam seu cachê, colocando quem arcaria com o combustível de seu jatinho particular." (Foto: Bobby Short no 150 Night Club, Maksoud Plaza, 1983 - Fonte: Ovadia Saadia).

28/11/2007

David Van Kriedt

Não há consenso acerca do nome do moço: David Van Kriedt (conforme consta no encarte do álbum Re-union) ou Dave Van Kreidt (como aparece na resenha do All Music Guide sobre o álbum Re-union). Seja lá como for, muito pouco se sabe a respeito desse saxofonista tenor, compositor e professor nascido em 19 de junho de 1922 em Berkeley, Califórnia, e falecido em 29 de setembro de 1994, em Newcastle, Austrália. Enquanto Dave Brubeck e Paul Desmond se tornavam celebridades do mundo do jazz, Kriedt se trancafiava nas universidades, estudando, compondo e ensinando. Logo ele, quem diria, um dos principais responsáveis pela definição da sonoridade dos futuros grupos de Brubeck, morreria completamente esquecido na Austrália, onde faria o filho Larry Van Kriedt, contrabaixista do famoso grupo AC/DC. Coisas do jazz. Kriedt passou três anos na Mills College, em São Francisco, estudando composição com Darius Milhaud, (na foto abaixo, Kriedt está sentado à direita com óculos, Brubeck está em pé de óculos e gravata e Milhaud refastelado à mesa com gravata borboleta, comemorando seus 60 pesados anos, em 1952) período em que formou com colegas de curso o The Jazz Workshop Ensemble, mais tarde conhecido como The Octet e, finalmente, como Dave Brubeck Octet. Em 1946 a formação do The Octet era Dave Brubeck (p), Paul Desmond (as), Dave Van Kriedt (ts), Bill Smith (cl), Dick Collins (t), Bob Collins (tb), Jack Weeks (b) e Cal Tjader (d).
Com sua música pouco comercial e de vanguarda, Kriedt e seu The Octet tocaram em pouquíssimos clubes e gravaram muito pouco (há um cd da Fantasy denominado The Dave Brubeck Octet, contendo algumas gravações do grupo realizadas entre 1946 e 1950, inclusive a memorável Fugue on Bop Themes). Responsável pela maioria das composições e pela sonoridade etérea e cool que dominariam o estilo west coast na década seguinte, Kriedt idealizou também uma série de inovações, entre elas a formação do até então inusitado duo de sax tenor com contrabaixo, que ele inaugurou no pub The Place, em São Francisco. Sua composição Fugue on Bop Themes foi utilizada em 1951 por Igor Stravinsky, quando o mestre russo realizou conferências na Universidade da Califórnia (UCLA), para demonstrar aos estudantes a verdadeira arte do contraponto. Por essas e outras, alguns críticos costumam associar o trabalho de Kriedt à chamada Third Stream, escola posteriormente solidificada por Gunther Schuller. Mas, ok. Dizem as más línguas que Kriedt andou algum tempo por Honolulu, em meados da década de 1950, fazendo não se sabe exatamente o que. Antes disso, porém, em 1948, Kriedt esteve algum tempo na França, onde gravou com os Be Bop Minstrels de Kenny Clarke, recebendo o prêmio de melhor álbum do ano. Reconhecido pelos músicos locais, Kriedt chegou a tocar com o guitarrista Django Reinhardt. Ainda na Europa, Dave passou pela Noruega para visitar seu avô, Ollie Clausen, organista que teve entre seus alunos ninguém menos que Edvard Grieg. Em 1952, retorna a Mills College, onde recebe o primeiro prêmio por composição.
Importante também foi o período em que Kriedt trabalhou com Stan kenton, em 1955, participando de um álbum notável: Contemporary Concerts. Nesse período Kriedt trabalhou com excelentes músicos, entre eles Bill Holman, Gerry Mulligan, Bill Perkins, Lennie Niehaus, Charlie Mariano, Don Davidson, Carl Fontana, Bob Fitzpatrick, Kent Larson, Gus Chappell, Don Kelly, Ed Leddy, Bobby Clark, Al Porcino, Sam Noto, Stu Williamson, Ralph Blaze, Max Bennett e Mel Lewis. Além de produzir alguns arranjos, Kriedt também excursionou com a banda de Kenton, tocando no Canadá e em grandes clubes dos EUA, como o Blue Note de Chicago e o Birdland de New York. O álbum Re-union, gravado em 1957, com Dave Brubeck (p), Paul Desmond (as), Norm Bates (b) e o novo baterista de Brubeck, Joe Morello, traz oito composições de Kriedt, além de fornecer bom exemplo de seu competente desempenho ao tenor. Kriedt tocava tão forte que foi preciso colocar uma toalha de rosto sobre a campana (bell) de seu saxofone, de modo a abafar seu som, adequando-o aos padrões exigidos pelo silencioso cool jazz. Para os amigos navegantes deixo a faixa Shouts. Boa audição!

Shouts - Kriedt.mp...

27/11/2007

Anthony Wilson

Hoje o Jazzseen tem o privilégio de trazer para os amigos uma resenha do escritor Pedro Nunes. Publicada originalmente em seu Almanaque Íntimo, conseguimos permissão para publicá-la em nosso blog. É assim: "Quem assistiu ao DVD Live in Paris, de Diana Krall, pôde reparar que, além de a bela pianista apresentar-se com uma saia que batia nos tornozelos, o que só faz aumentar seus méritos num momento em que as grandes cantoras se apresentam bem menos vestidas, ela se fez acompanhar de um time de músicos de primeira: o brasileiro Paulinho da Costa, na percussão, John Clayton, no baixo, Jeff Hamilton, na bateria, e Anthony Wilson, na guitarra, além da orquestra regida por Claus Ogeman. E quem reparou melhor viu no canto esquerdo do vídeo, à direita da cantora, um sujeito com cara de nerd , com direito a óculos fundo-de-garrafa, mandando ver encurvado sobre uma Gibson. Na hora do solo, lá estava ele, debaixo dos olhos admirados da dona do show – que quase rouba. Pois é, Anthony Wilson é o nome do cara. Mas quem é Anthony Wilson? Existe vida além de Diana Krall? Felizmente sim. Bem, eu já tinha concluído, pelos motivos expostos, que estava diante de um grande músico, e, posto receasse encontrar algo diverso do que vira, resolvi arriscar um palpite. Para tentar ratificar minhas impressões, fiz chegar-me às mãos seu álbum de estréia, simplesmente Anthony Wilson, lançado em 1997. Claro que um álbum de estréia pode ser temerário, mas não me decepcionei. Muito pelo contrário. E olhe que, além de tocar, Anthony Wilson compôs sete das dez magníficas faixas do disco e é autor de todos os arranjos que executa em companhia de Carl Saunders no trompete, Ira Nepus no trombone, Louis Taylor em vários instrumentos de sopro, Pete Christlieb no tenor, Jack Nimitz no barítono, Brad Mehldau no piano, Danton Boller no baixo e Willie Jones III na bateria. Anthony Wilson tem pedigree: é filho do respeitadíssimo, embora pouco conhecido, band-leader e trompetista Gerald Wilson. Mas parece ter feito, e bem, seu próprio caminho. Claro que podia ter feito outras opções. Outros músicos bem mais velhos que ele escolheram caminhos mais fáceis, mas Anthony Wilson, felizmente, parece ter feito a escolha correta. Com os pés fincados no bebop, Anthony Wilson detém o prêmio do Thelonious Monk Institute International Composers’ pela faixa Karaoke, a terceira do CD – apesar do título, brilhante – , e já lançou cerca de meia-dúzia de trabalhos, dos quais Power of nine, lançado em 2006, foi considerado pelo The New Yorker’s como um dos dez melhores discos de jazz de 2006. Em março e abril deste ano fez diversas apresentações no Brasil com o violonista, guitarrista, compositor e arranjador Chico Pinheiro, com quem gravou o CD Nova. Existe a expectativa de que Nova renda várias apresentações no Brasil em novembro de 2007. Esperamos que ele apareça por aqui."

25/11/2007


  • Jazzseen News - Último dia do Recife Jazz Festival

  • Jazzseen News - Mr. Salsa no Balacobaco

  • Jazz na Casa de Mário Quintana

    Jorginho do Trompete e o tecladista Luiz Mauro Filho apresentam clássicos do jazz, da MPB e composições próprias nas próximas quintas-feiras, 29 de novembro e 6 de dezembro, em duas edições consecutivas do Projeto Música na Travessa, da Casa de Cultura Mario Quintana. As apresentações começam, pontualmente, às 12h30min, na Travessa dos Cataventos – principal acesso da CCMQ. Nos shows, o público poderá conferir a atuação de Jorginho como jazzista e também o swing brasileiro do instrumentista, considerado por Luis Fernando Veríssimo: “Um dos melhores músicos do Mundo”. Ao longo dos mais de 20 anos de carreira, Jorginho já dividiu o palco e participou da gravação de discos com nomes conceituados da música gaúcha, brasileira e internacional, como Renato Borghetti, Márcio Montarroyos, Paulinho Trompete, Raul Mascarenhas, Paulo Sérgio Santos e Gabriele Mirabassi, renomado clarinetista italiano. O Música na Travessa é mais uma opção cultural para o público que visita a CCMQ e também para as pessoas que trabalham e transitam pelo Centro de Porto Alegre neste horário. O Música na Travessa tem entrada franca e conta com o patrocínio do programa Nosso Banco, Nossa Casa, do Banrisul. MÚSICA NA TRAVESSA COM JORGINHO DO TROMPETE - Dias: 29 de novembro e 6 de dezembro; Horário: às 12h30min;Local: Travessa dos Cataventos – Térreo da CCMQ – Andradas, 736. ENTRADA FRANCA. Mais informações sobre a Casa de Cultura Mário Quintana aqui no Jazzseen News.

    24/11/2007


  • Jazzseen News - Jazz em Porto Alegre


  • Em sua longa carreira no Jazz Tradicional Tito Martino foi aplaudido juntamente com seus diversos conjuntos em Festivais de Jazz em New Orleans, Lyon, Buenos Aires, em Breda (Holanda), em Cheserex e Ascona (Suiça ), gravou 8 LP's e 3 CD's, produziu e apresentou programas de Jazz na TV e FM Cultura, criou e liderou durante 20 anos o extinto Traditional Jazz Band (o original ), criou e dirigiu o OPUS 2004, única casa de Jazz no Brasil. Conversou com Louis Armstrong e Duke Ellington, tocou com Oscar Peterson, Teddy Wilson, Louis Nelson, Cat Anderson, Wally Rose, figuras mitológicas do Jazz, em memoráveis Jam-Sessions. Tito comemorou os 40 anos de sua carreira jazzística produzindo um aplaudidíssimo Concerto no Teatro Municipal de São Paulo. E ainda, em 2001, idealizou e produziu no Memorial da América Latina o Armstrong Memorial Concert, comemorando o centenário de nascimento do "Satchmo", para isso trazendo de New Orleans o Original Dixieland Jazz Band e de Buenos Aires o Porteña Jazz Band. Foram produções gigantescas que ninguém no Brasil conseguiu igualar. O Washington Post e o New York Times publicaram sua foto com destaque e com elogios dos mais respeitados críticos de Jazz norte-americanos. Críticos especializados europeus, gente que verdadeiramente entende de Jazz, reconheceram que ele tem um estilo próprio e não copia ninguém. Tito e seus companheiros tocam o JAZZ CONTEMPORÂNEO e o DIXIELAND PROGRESSIVO porque gostam! E o prazer deles é que você se divirta ouvindo, como eles se divertem tocando. O maior regente brasileiro, o Maestro Diogo Pacheco, apresenta assim o ultimo CD do TITO MARTINO JAZZ BAND, "Classical Jazz Today": "Basta ouvir o CD para constatar que eles chegaram num patamar que poucos atingem. Não sou de elogios. Pelo contrário, sou um chato de muitas exigências. O Tito Martino mais uma vez me conquistou". A maior parte do repertório é inspirada nas raízes do JAZZ TRADICIONAL, a saber, Blues, Ragtimes, Marchas, Valsas, Hinos, Spirituals, Canções Folclóricas inglesas, francesas, espanholas, tudo temperado com o incomparável "swing" proveniente dos tambores africanos. É Jazz autêntico , portanto todos os solos são verdadeiramente improvisados segundo a inspiração do momento: uma alegria expontânea transborda das interpretações e contagia o publico. Não são poucos os que saem dançando pelo salão! Você vai ouvir também Summertime, When the Saints go Marchin'in, Saint Louis Blues, Hello Dolly, mais os sucessos de Duke Ellington, Louis Armstrong, Benny Goodman, George Gershwin, Nat "King" Cole, ou George Lewis (o clarinetista de New Orleans, ídolo do Woody Allen), além de algumas composições de Tito, tudo interpretado de um modo original e criativo, como deve ser o verdadeiro Jazz... que é como tocam sempre... Uma celebração da Vida e da Alegria nos sons quentes e no ritmo sincopado do Jazz!

    23/11/2007

    Del Dako, um bom marido

    Como todo fumante inveterado e convicto, eu sempre defendi a tese de que exercício físico faz mal à saúde. E tenho tido um bom número de provas concretas de que minha tese está correta. Que tipo de calamidade ou desastre da natureza poderia fazer com que um excelente saxofonista barítono largasse seu instrumento e passasse a tocar o tenebroso vibrafone? Se você pensou em câncer de pulmão, ocasionado pelo tabagismo, está totalmente enganado. Del Dako, um excelente barítono canadense, foi obrigado a largar o saxofone depois de uma terrível queda de bicicleta. Estimulado por sua esposa Sylvia, uma exímia praticante de mountain bike, Dako resolveu acompanhá-la em saudáveis subidas e descidas de imensas ribanceiras enlameadas. Como era de se esperar de um exímio saxofonista, numa bela manhã, Dako foi projetado em altíssima velocidade num gigantesco precipício esburacado. O resultado foi que, no final da aprazível trajetória, seu nariz e sua boca foram parar na nuca, o que implicou em lesões severas em duas vértebras do pescoço. O prêmio? Um corpo totalmente paralisado. Depois de vários anos de tratamento, Dako recuperou boa parte de seus movimentos, embora ficasse inapto para prosseguir com sua longa e bem sucedida carreira de saxofonista (ele perdeu totalmente a embocadura). Influenciado por Charlie Parker (Dako começou tocando alto), Serge Chaloff e Earl Seymour, Dako possuía, antes de andar de bicicleta, uma pegada fluida e arisca, característica pouco comum nos saxofonistas barítonos médios, quase sempre pesados e lentos. Sua sonoridade, falsamente delicada, por vezes nos faz lembrar um Mulligan acelerado, embora seu domínio sobre o improviso ainda seja, até onde pude ouvir (apenas um álbum), limitado. Para os amigos navegantes, deixo a faixa saudosista Dick's Feelings, retirada do álbum Balancing Act, gravado em 1990 para a Sackville. Com ele estão Richard Whiteman (p), Dick Felix (b) e Mike McClelland (d). E não se esqueça: esposas e bicicletas fazem mal à saúde.

    Dick's Feelings.mp...

    20/11/2007

    Red wing

    Vovô Acácio era um homem cheio de estranhas manias e paixões secretas. A casa ampla, construída em centro de terreno, permitia que circulássemos livremente em torno dela. As leves cortinas de algodão fiadas à mão por vovó Tícia nunca foram suficientes para emudecer as silhuetas que circulavam pela casa, especialmente aquelas provenientes da biblioteca, onde vovô guardava seus objetos e documentos de maior valor e estima. Era ali, entre milhares de livros, envelopes e pastas, que vovô escondia uma de suas três maiores paixões: tratava-se do long play Ride, Red, Ride in Hi-Fi, do trompetista Henry ‘Red’ Allen. Gravado em março e abril de 1957, vovô apressou-se a gravá-lo em fita cassete, preservando o original que, muitos anos depois, faria parte do legado que com tanto carinho me destinou. Vovô vibrava muito ouvindo Red, chegando a considerá-lo o maior trompetista do estilo new orleans, superior mesmo, segundo ele, ao magnífico Louis Armstrong. Nascido em 1908, em Nova Orleans, Red não chegou a completar sessenta anos de idade. Aprendeu seu instrumento na banda do pai, uma das muitas existentes na cidade. Depois de trabalhar com outros músicos, como George Lewis, parte em 1927 para St. Louis, onde tocaria com King Oliver. Acompanhando King, chega a New York, onde gravaria com Clarence Williams. No final da década, Red tocou ao longo do Mississipi com Fat Marable e suas famosas riverboat bands. Nesse período foi descoberto por ‘olheiros’ da Victor, que pensaram encontrar nele uma alternativa capaz de rivalizar com o imenso sucesso da Okeh, ninguém menos que Louis Armstrong. Retornando a New York, grava quatro faixas para a Victor em 1929, acompanhado pela banda de Luis Russell, alcançando imediato prestígio entre os músicos de jazz. A partir daí, Red tornou-se o primeiro trompete das bandas de Russell (1929-1932), Fletcher Henderson (1933-1934) e Mills Blue Rhythm Band (1934-1937), estabelecendo-se como o melhor trompetista do período inicial do swing.
    Apesar de excelentes gravações como líder, algumas delas consideradas modelos perfeitos do swing, em 1937 Red e a banda de Russell vão trabalhar para Armstrong. Como segundo trompete, Red percebe que seu espaço como solista estava sendo ocupado por trompetistas mais modernos, com o genial Roy Eldridge. Separando-se de Armstrong em 1940, Red volta-se para uma espécie de revival do estilo new orleans, gravando com antigos mestres, como Jelly Roll Morton e Sidney Bechet. Na década de 1950 retorna ao swing, gravando com um time que incluía, entre outros, Coleman Hawkins, Buster Bailey, Kid Ory, Pee Wee Russell e JC Higginbotham. Entre 1954 e 1965, Red tocou no Metropole, um excelente clube de New York, além de realizar diversas turnês pela Europa. Vovô então me puxou e disse: escute Paulinha, veja se você consegue distinguir quem é Red e quem é Armstrong nessa gravação de I Ain’t Got Nobody, de 1929! Incrível, não é? Realmente, como quase todo trompetista desse período, o estilo inicial de Red era bastante similar ao de Armstrong. Mas é preciso lembrar que Red cresceu ouvindo Armstrong tocar na banda de seu pai e, assim, modelou a partir dele sua técnica perfeita e sua sonoridade básica. Somente mais tarde, livre do peso monumental de Armstrong, Red pode desenvolver seu estilo próprio, fluido, com seu legato articulado, sua concepção personalíssima de ritmo (ele simplesmente ignorava o tempo da banda), além de seus incríveis efeitos, como grunhidos, glissandos, tremolos, rips, notas salpicadas, tudo com um ataque sempre malicioso, a tal ponto que vários músicos do free jazz encontraram nele uma rica alternativa à sonoridade padronizada do bebop. Apesar de se tornar famoso por ser capaz de rivalizar com Armstrong em velocidade, técnica e virtuosismo gratuito nos registros médios e agudos, Red terminou sua carreira com um dos sopros mais expressivos na região grave do instrumento. Sempre em movimento, no fim da vida abandona o swing, voltando-se novamente para o estilo new orleans e, dessa vez, com ênfase para o blues. Impressionada com a música de Red e com as palavras entusiasmadas de vovô, não consegui adormecer. Foi assim, vencida pela insônia, que descobri às 4 da manhã a segunda paixão secreta de vovô Acácio: minha janela dava para o quintal e, com a lua cheia, pude observá-lo nitidamente caminhando em direção à garagem. Aproximando-me sorrateiramente, pude vê-lo sussurrando palavras desconexas e acariciando sua Mercedes Benz 300SL. Ele a chamava de ‘my little gullwing’, enquanto a massageava com uma finíssima camisola de vovó Tícia. Quanto à terceira paixão secreta de vovô, nunca soubemos de nada concreto, exceto que era loura e falava muito pouco.
    I Cover the Waterf...

    O lp Ride, Red, Ride in Hi-Fi foi lançado em cd pela Bluebird, com o título World on a String. Para você deixo a faixa I Cover the Waterfront, com Red, JC Higginbotham (tb), Buster Bailey (cl), Coleman Hawkins (ts), Marty Napoleon (p), Everett Barksdale (g), Lloyd Trotman (b) e Cozy Cole (d). Até a próxima!

    19/11/2007

    Crítica: A longa história

    Quem já leu, sabe. Quem ainda não leu, certamente ficará curioso depois de ler a crítica feita por Paulo Bentancur ao livro A longa história, de Reinaldo Santos Neves. Segue a introdução: "Mais de 600 páginas. O século é o 13. O cenário, ou melhor, os cenários são mosteiros, florestas remotas no tempo, habitadas por figuras (homens e animais) que a época, mítica, evoca (com um realismo invejável, com um humor e psicologias convincentes). Você imagina estar diante daqueles catataus escritos por medievalistas europeus ou por um norte-americano que, para variar, fez muito bem o dever de casa: conquistar o público pela hipnose de um gênero literário insuperável - a saga épica com pano de fundo constituído de um mundo que recém se revelava para todos, mágico em cada detalhe porque ainda ignorado. (Estávamos longe do Iluminismo.) Pois A longa história, de Reinaldo Santos Neves, é uma glosa de toda uma literatura - e suas inumeráveis variantes -, literatura que com O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien, de 1954 (é, pessoal, o livrão já completou 53 anos de existência e êxito), fatiou a modernidade nas letras. É popular sem ser popularesco. Como, trinta anos depois, Umberto Eco mostraria que era possível fazer, em O nome da rosa. Espere aí, volte o filme, editor: Reinaldo Santos Neves? Sim. Bem-nascido em 1946, em Vitória, no Espírito Santo. Capixaba, vejam só. O espírito santo baixou no homem e ele foi a alturas que nosso beletrismo de apartamento classe média não vai. Nariz erguido, não topamos (na verdade, nos faltam fôlego e cultura) contar sagas intermináveis. Exceção, claro, às narrativas embebidas na História nacional, tipo Canudos, Revolução Farroupilha, Guerra do Contestado. Crônica ficcional de conflitos beligerantes e oficializados por papéis carimbados e museus localizáveis ali na esquina. Um pouco de pesquisa, um tanto de paciência - e deu! Porém, encarar o mundo, sobretudo o Primeiro Mundo, distante geográfica e temporalmente, não com o servilismo de quem os imita em sua imaginação e memória, mas com a audácia (em A longa história, eficácia) de um epígono que soube costurar material reciclado, ah, isso é muito raro. É uma aventura literária e editorial isolada nos trópicos." Para ler a crítica na íntegra, vá até o site Rascunho, um jornal virtual de literatura brasileira. Querendo comprar o livro, clique aqui.

    17/11/2007

    Way down south in New Orleans: Jacques Gauthe

    Ouvindo Mr. Marvilla falar em Paris, lembrei imediatamente de New Orleans, cidade fundada em 1718 por Jean Baptiste La Moyne, Sieur de Bienville. Duzentos e oitenta anos depois, estava eu pela primeira vez naquelas terras em forma de lua crescente onde, em 1724, promulgou-se o famoso Código Negro, legislação destinada a regular a vida dos negros na Louisiana, preocupada especialmente em evitar a mistura de raças, proibindo qualquer tipo de relação formal entre negros e brancos, seja através do matrimônio, seja do concubinato. Mas foi somente em minha terceira visita a Nórlins, em 2005, que tive o prazer de conhecer um francês naquelas bandas, o clarinetista Jacques Gauthe. Ele tocava no bar mais bagunçado que já conheci no French Quarter, um tal de Fritzel’s, no 733 da Bourbon Street. Escuro e apertado, os músicos espremiam-se uns contra os outros, enquanto os freqüentadores conversavam alto e bebiam algumas das cervejas mais geladas do quarteirão francês. O tipo de música que se ouvia, e até onde sei ainda se ouve, é basicamente o dixieland, com algum swing comportado. Após o primeiro set, perguntei a Jacques o que era dixieland afinal. Ele me disse que não sabia. Ele apenas tocava aquela música maravilhosa e ficava muito feliz com isso. Lembrava ter lido em algum lugar que, segundo o musicólogo Hans Nathan, o termo dixieland, significando ‘sul negro’, apareceu impresso pela primeira vez em 1860, na edição da canção Johnny Roach, composta por Dan Emmett. Outros autores atribuem o termo ao fato da região sul dos EUA ficar abaixo da linha de Mason e Dixon. Há quem diga, ainda, que a palavra se originou das notas francesas emitidas em New Orleans, chamadas dix (dez). O fato é que tudo indica que o termo dixieland surgiu na região norte, sendo usado para designar a região sul.

    O termo dixie, por sua vez, era utilizado inicialmente para designar o negro do sul, passando, mais tarde, a ser utilizado como sinônimo de dixieland. O mais curioso é que essa origem nada tem a ver com o estilo de jazz denominado dixieland, uma espécie de versão branca dos estilos new orleans e chicago. Quando surgiram, os termos dixie e dixieland eram utilizados por compositores brancos de negro minstrels, estilo de música popular que atingiu seu ápice nas décadas de 1830, 40 e 50. Pintando o rosto com cortiça queimada, músicos brancos, como Dan Emmett, apresentavam nos teatros lotados composições que exploravam o lado mais patético e humilhante da vida e da cultura do negro caipira. As composições, embora elaboradas a partir dos fundamentos da música popular irlando-escocesa, eram recheadas com elementos característicos dos negro spirituals e das plantation songs. Somente cem anos depois a expressão dixieland passaria a denominar um estilo particular de jazz, também denominado de revival, nos anos 1940 e 1950. Terminado o intervalo, Jacques voltou ao seu banquinho e dilacerou mais uma boa meia dúzia de clássicos de New Orleans, além de uma homenagem ao seu grande ídolo e mentor, Sidney Bechet. Para o amigo visitante, fica a faixa Blues for Bechet, retirada do álbum Echoes of Sidney Bechet, lançado pela Good Time Jazz, em 1997, centenário de nascimento do mestre. O amigo Jacques nos deixou em 10 de junho (1939-2007).

    Jacques Gauthe - B...


  • Jazzseen News - London Jazz Festival





  • 16/11/2007

    Novo livro de Miguel Marvilla

    Finalmente, depois de um tempão na gaveta, e atendendo a insistentes pressões, quer dizer, pedidos, do Gilvan, resolvi publicar a minha pesquisa de mestrado: O Império Romano e o Reino dos Céus, segundo volume da Coleção Biblioteca Universitária, da Flor&cultura. Nesse livro eu analiso um discurso ("De laudibus Constantini") pronunciado no século IV por um bispo palestino (Eusébio de Cesaréia) no Jubileu dos trinta anos de governo do imperador romano Constantino, tido como o primeiro imperador cristão, o governante romano que não apenas acabou com as perseguições aos seguidores de Cristo como também restituiu-lhes a liberdade, promulgou leis favoráveis a eles e concedeu-lhes privilégios (isenção de impostos, por exemplo... é, essa sacanagem vem de 1.700 anos) e riquezas tais que, em pouco tempo, no espaço de uma geração, eles passaram de perseguidos a perseguidores e tornaram-se o alicerce moral, ético, intelectual e espiritual do Ocidente. Mas o barato desse discurso do Eusébio é que, mesmo sendo um discurso cristão (e grandinho: a versão moderna tem 80 páginas no formato 14 x 21. Imaginem aquele calor desgraçado do verão em Constantinopla, ano 316, sem ar condicionado, e um bispo lendo 80 páginas, em grego... e ai de quem saísse.), então, mesmo sendo um discurso cristão, ele não fala uma única vez sequer no nome de Cristo, em crucificação ou sacrifício, essas coisas tão caras aos cristãos. Por que um bispo, diante de um imperador cristão (de fato, porque de direito ele só se batizou na hora da morte) que governava quase por consenso, não fala o nome de Jesus? As hipóteses são várias, respostas definitivas não há. Se vc quiser saber mais, esteja lá, no coquetel de lançamento, na sede da Adufes, quarta que vem, 21, às 19h00. A Adufes é aquele prédio com frente de vidro ao lado da "penteadeira de bordel" (o prédio da FCAA), na Ufes. Quem quiser comprar, leva R$ 25, que este escriba quer ir a Paris de novo ano que vem. Quem não quiser, está convidado e será bem-vindo do mesmo jeito: o mais importante é a conversa e o abraço. Conheça melhor Miguel Marvilla e sua obra AQUI.

    13/11/2007

    Bacus

    Prezada Lester, no dia 21 de Novembro, 20:00h, estaremos na Aleixo com meu amiga Jacques Prieur, reconhecida enólogo french e diretora-presidente de vinícola Domaine, situado na região da Borgonha. Quero que você vá até ali para conversar comigo, que tem várias meses que não encontramo-nos. Para que essa ocasião seja igualmente agradável todos, o seu amiga Chef Juarez Campos elabora cuidadosamente um menu degustação, harmonizado pela sommelier Boris Acevedo com vinhos desta renomada região. Segue assim:

    Menu

    1º Prato
    Timbale de Pato com Alho-porró em Duas Texturas
    Louis Picamelot, Cremant de Borgonha 2004.

    2º Prato
    Raviole de Galinha D'Angola Trufado
    Domaine Jacques Prieur, Clos Mathilde 2004.

    3º Prato
    Bacalhau Light Salted sobre Lentilhas de Puy
    Domaine Jacques Prieur, Clos de Mazeray 2004.

    4º Prato
    Cordeiro ala Bourguignon sobre Mousseline de Batatas e Nabo
    Domaine Jacques Prieur, Champs Pimont 2003.

    Sobremesa
    Pêras ao Vinho com Especiarias e Sorvete


    * Valor: R$ 200,00 por pessoa. Reservas (27) 3235 9500 - Rua Aleixo Neto, 1.204 - Praia do Canto - Vitória - ES.

    11/11/2007

    Fusion? Só na recíproca

    É assim mesmo. Mr. Grijó é o tipo de indivíduo que consegue criar e manter um blog muito bem freqüentado sem oferecer endereços para download de álbuns ou filmes, coisa rara nesses dias de textos ralos e idéias raras. Parabéns ao Ipsis Litteris, um dos poucos espaços virtuais que visito com prazer e curiosidade. É que lá me sinto à vontade, talvez pela impressão de que convivo com pessoas inteligentes e sutis, capazes de dialogar com respeito e conviver com a diferença sensata. Ou talvez eu goste apenas porque sempre aprendo alguma coisa por lá sobre literatura, música e cinema. Só falta agora Mr. Grijó cumprir mesmo aquela tal promessa, a de escrever uma resenha sobre a fusion para o Jazzseen, denominação tida como um dos estilos do jazz. Eu, por mim, prefiro associar a fusion ao rock, esse tipo de música que, com o passar do tempo, se apegou exageradamente aos decibéis e distanciou-se cada vez mais do blues, seu bom e sábio avô. Foi no primeiro Rock in Rio, quando meus tímpanos se romperam com os tiros de canhão do AC/DC e quando vi Ozzy Osbourne arrancar a cabeça de uma galinha viva com os dentes, que resolvi me dedicar com mais determinação ao jazz, esse tipo de música que não requer fantasias nem maquiagem, mas tão somente o músico e seu instrumento acústico. No jazz, pode até faltar energia elétrica. E concordo que hoje sabemos que tudo depende de como definimos jazz. Ou rock. Eu já disse mais de uma vez e repito: tudo está no ritmo. A definição de jazz, samba ou rock, já que impossível em palavras ou partituras, deve se basear no ritmo, na batida, na pegada, coisa que somente o ouvido poderá fazê-lo adequadamente. Obviamente que samba não é jazz e, por outro lado, rock também não é jazz. É por aí que excluo a fusion do meu mundo de jazz, preferindo alocá-la na prateleira mais próxima ao rock. Claro que podemos reservar um nicho específico nessa estante para a fusion, essa coisa criada, dizem, por Miles Davis no final da década de 1960 com suas In a Silent Way Sessions. O insosso e cansativo álbum (duplo meu Pai eterno!) Bitches Brew, também de Miles, é considerado um marco nesse terreno extremamente chato do chamado jazz rock ou fusion.

    Aliás, a pior fusion é, sem sombra de dúvida, aquela produzida por bons músicos de jazz, como Herbie Hancock, Wayne Shorter, Joe Zawinul, Donald Byrd ou Chick Corea. Esses músicos fantásticos são formidáveis tocando jazz acústico, mas soam lamentáveis fazendo rock, elétrico por definição. A recíproca já me atrai: gosto de alguns bons músicos de rock tentando tocar jazz. Fiquemos apenas com um exemplo que eu recomendaria ao amigo visitante: Nucleus, um conjunto de rock inglês formado por Ian Carr (t), Karl Jenkins (bs, oboé, p), Brian Smith (ss, ts, f), Chris Speedding (g), Jeff Clyne (b) e John Marshall (d). Vale notar que os grupos de rock não têm problemas alguns em lidar com o poder da eletrônica, coisa tratada com certa indecisão pelos conjuntos de jazz. É para bater? Que se bata com força. E foi assim que o Nucleus saiu vitorioso do Montreux Jazz Festival de 1970, ano em que gravou seu excelente álbum Elastic Rock, cujo título diz muito. Em julho desse mesmo ano, já em New York, o grupo se apresenta no Village Gate para uma platéia estupefata, que se perguntava que música era aquela: não era jazz, não era rock. Talvez apenas Roland Kirk, que estava sentado na primeira fila, soubesse responder. Deram-lhe o nome de jazz rock. Como a maioria dos bons álbuns de jazz rock, Elastic Rock deve ser ouvido na íntegra, já que a audição de apenas uma faixa equivale à leitura de apenas um capítulo. Mas, fazer o que? Para o amigo navegante fica a faixa Torrid Zone, uma breve amostra do que é fusion: bons músicos de rock tentando tocar jazz. Boa audição e não se esqueça: evite álbuns de músicos de jazz tentando tocar rock!


    09 Torrid Zone.mp3

    Nota: a quem se interessar pela coisa, recomendo o cd duplo Nucleus, lançado pela BGO Records, contendo os álbuns Elastic Rock e We’ll Talk About It Later.

    09/11/2007

    Elf & Alef

    Depois que nossa amiga Paula falou sobre Mark Elf, é a vez de saudarmos O Aleph, álbum do pianista capixaba Fabiano Araújo, que concorre ao Prêmio Taru 2007. Pianista, compositor e arranjador, Fabiano Araújo lançou em 2007 seu primeiro trabalho autoral intitulado O Aleph , onde com 11 composições inéditas transitou do erudito ao popular em uma formação instrumental orquestrada com originalidade e criatividade. Bem recebido pela crítica especializada, O Aleph está na lista de álbuns indicados pelo Jornal O GLOBO, tendo recebido cotação máxima pelo crítico Antônio Carlos Miguel. " Bela surpresa... vôos instrumentais surpreendentes, do choro ao jazz" O GLOBO, 3/9/2007. Considerado pela revista Guitar Player como um músico talentoso e refinado, com esse trabalho Araújo traz uma sonoridade característica das atuais orquestras populares, onde bandolins, violão e acordeão trabalham com os sopros criando texturas que evidenciam o estilo do pianista. Acompanhado por grandes artistas da música instrumental brasileira como Mário Sève (Paulinho da Viola, Nó em Pingo d’água, Aquarela carioca), Fausto Borém (Yo Yo Ma, Egberto Gismonti) e Carlos Martau (Cheiro de Vida), o pianista apresenta um trabalho onde explora formas, nuances de tempo e riqueza de sonoridades. O Aleph é um trabalho onde o artista demonstra as influências da obra de Schoenberg, Hermeto Pascoal, Radamés Gnatalli e Tom Jobim, sendo esses últimos lembrados em seu show através de arranjos (Brasiliana n.7 e Boto) que ao serem executados pelo sexteto ganham uma forma singular e cores inesperadas. Agradeço ao amigo Rogério Coimbra, sócio diletante do Clube das Terças, pela excelente dica.

    Elf

    Já faz algum tempo que não falamos sobre guitarristas aqui no Jazzseen. Lendo as resenhas de John sobre sua viagem ao Chile, lembrei logo de Mark Elf, guitarrista nascido em 1949, em New York. É que tive a sorte de conhecê-lo em minha visita ao Chile, em 1993, durante sua apresentação no Alcantilado, um pequeno bar no agradável bairro de Bellavista, em Santiago. O bar não existe mais. Ficou apenas o excelente álbum Mark Elf Trio, gravado naquele ano para o selo chileno Alerce. Com Mark estavam diversos músicos chilenos, entre eles Ramon Romero (b), Alejandro Espinosa (d) e a cantora Claudia Acuna na faixa Body and Soul. Como sempre, o som cristalino de Mark faz com que cada nota seja ouvida de forma clara, perfeita, independentemente da velocidade e quantidade em que sejam tocadas. Ao seu swing nato, Mark adicionou três anos de estudos em Berklee, o que lhe permitiu enfrentar todos os contextos do jazz, trabalhando com mestres tão distintos quanto Lou Donaldson, Dizzy Gillespie, Lionel Hampton e Branford e Wynton Marsalis. Para quem aprecia o trabalho fluido e melódico de músicos como Herb Ellis, Barney Kessel ou Pat Martino, recomendo o álbum Minor Scramble, gravado por Mark em 1996 para seu próprio selo, Jen Bay. Com ele estão vários músicos da noite novaiorquina, como Eric Alexander (ts), Nicholas Payton (t), Benny Green (p), Peter Washington (b) e Louis Nash (d), entre outros. Aqui você encontra de tudo, desde Tico Tico no Fubá até A Fine Romance. Fica a faixa título para os leitores avaliarem. Beijos!

    01 A Minor Scrambl...

    07/11/2007

    All Night Long (1962): jazz e Shakespeare

    No Clube das Terças (sim, com maiúsculas) não se fala somente sobre jazz, como muitos querem fazer pensar. O jazz sublinha as conversas, é verdade, mas nem só de música vive o homem - ou os homens. No caso do clube, o número de participantes não chega a completar os dedos de duas mãos, mas são assíduos como recém-maridos: comparecem com alegria e disposição. Bem, não é isso o que eu queria dizer. Há alguns meses chegou a minhas mãos - via Chico, um dos assíduos terceiros - o filme All Night Long, de Basil Dearden. Sim, claro: o filme tem muito a ver com o jazz, mas relaciona-se também a Shakespeare, o bardo que, se vivesse nos dias de hoje, faria misérias ao piano. Macbeth é um solo de Earl Hines; Hamlet é um fraseado de McCoy Tyner nos bons tempos ao lado de Coltrane, Elvin Jones e Jimmy Garrison. Bem, voltemos ao filme. O drama Othello é transposto para um apartamento londrino no qual uma festança - cujo anfitrião é Richard Attenborough, na pele do fã de jazz Rod Hamilton - se desenrola. Uma festança à base de jazz, na qual Charles Mingus, Dave Brubeck e o inglês Johnny Dankworth dão o ar da graça ao lado de personagens que fazem as vezes de Iago, Othello e Desdemona, interpretados, respectivamente, por Patrick McGoohan (Johnny Cousin), Paul Harris (Aurelius Rex) e Marti Stevens (Delia). McGoohan está perfeito como o invejoso e ardiloso personagem que de tudo faz para que o bonzinho e digno Aurelius Rex desconfie da mulher. Usa cigarreiras e gravações em fitas de rolo para criar a infâmia. Veja o filme e você concordará comigo: além da ótima música que corre solta, os trejeitos malevolentes de Johnny Cousin/Iago são o que há de melhor no história.
    Diferentemente do drama original, a película tem final feliz. Mas feliz, de verdade, ficou a rapaziada do Clube das Terças, que pôde testemunhar Dave Brubeck e Charles Mingus tocando juntos, mesmo que por pouco tempo. Outros músicos se divertem na história: Tubby Hayes (sax tenor), Keith Christie (trombone), Allan Ganley (bateria), Bert Courtley (trumpete), Ken Napper (baixo), Colin Purbrook (piano) e Johnny Scott (sax alto). Esse povo todo - mais Mingus, Brubeck e Dankworth, já citados - estão na trilha, cheia de improvisações: A propósito: favor não confundir esse disco com o All Night Long, de Don Byrd e Kenny Burrell, disco da Prestige gravado em 1956, no qual Hank Mobley põe o estúdio abaixo.Basil Dearden, o diretor, gostava mais de jazz do que de Shakespeare, embora soubesse que seu mais ilustre conterrâneo havia criado tramas que poderiam ser ajustadas em qualquer cenário moderno. Daí a sua atualidade. E se você acha que o velho dramaurgo inglês vale mais que o jazz, vai gostar do filme do mesmo jeito.

    03/11/2007

    Shopping

    Não recomendamos a leitura da presente resenha aos visitantes acostumados a efetuar compras na internet. É que, após ler a resenha Good Shop – Gary Smulyan, escrita pelo colaborador Frederico Bravante em 29/10/07, e o respectivo comentário feito pelo amigo ‘anônimo’, entendi necessário e útil esclarecer aos visitantes do Jazzseen alguns pontos básicos acerca de compras na internet, a saber:

    1) Alguns álbuns antigos de jazz são verdadeiros clássicos. Por serem antigos, já pagaram com folga todos os custos de gravação, edição e editoração. Além disso, por serem clássicos, estão sempre sendo consumidos em grandes quantidades. Esses dois fatores fazem com que tais álbuns sejam encontrados a preços bastante convidativos, quase sempre na faixa que vai de US$8.00 a US$12.00. Exemplos disso são alguns álbuns célebres de selos como Blue Note, Prestige, Impulse ou Atlantic. Álbuns como Blue Train (Blue Note) e A Love Supreme (Impulse), ambos de John Coltrane, são facilmente encontrados na internet por algo em torno de US$10.00 cada. Outros álbuns clássicos são lançados a preços justos pelo selo OJC (Original Jazz Classics), que reúne gravações realizadas por selos hoje inativos, como Fantasy, Jazzland, Period, New Jazz, Pablo, entre outros. Os álbuns de Oliver Nelson, citados por nosso amigo ‘anônimo’, configuram casos afins. Nesses casos, como veremos a seguir, pode ser interessante a importação, mesmo que incida a tributação;

    2) Os álbuns mais recentes e os lançamentos são, quase sempre, aqueles que oferecem preços mais elevados, algo que varia entre US$14.00 e US$18.00. Por serem produções mais atuais, exigem que o preço de venda recupere uma série de investimentos, salvo alguma promoção esporádica. Esse seria o caso dos álbuns de Gary Smulyan citados por Mr. Bravante, encontrados na CD Universe por US$13.85 (The Real Deal) e US$16.75 (Blue Suíte). Vale destacar que alguns álbuns antigos e raros, quando relançados, podem apresentar preços de venda altíssimos e injustificáveis, que giram em torno de US$40.00. Um exemplo típico são as reedições de alguns álbuns antigos por gravadoras japonesas, como é o caso do álbum Julian, de Pepper Adams, vendido por US$34.49 na Amazon. É importante alertar que muitos desses álbuns caríssimos costumam ser relançados, depois de algum tempo, a preços muito menores, em torno de US$10.00. Portanto, se não houver urgência na compra, vale a pena aguardar e acompanhar a queda do preço. Outra saída, conforme veremos adiante, pode ser a compra em sites brasileiros;

    3) Alguns álbuns excelentes de jazz não se tornam clássicos. Assim, costumam ser encontrados por preços muito interessantes, muitas vezes em torno de US$5.00 ou menos. Caso crônico de bons preços é o oferecido pelo selo Collectables, onde você encontra grandes álbuns de Coleman Hawkins, Ray Bryant, James P. Johnson, Eddie Harris, Dizzy Gillespie, James Moddy, Ronnie Ross, Lars Gullin e muitos outros por menos de US$5.00. Vale conferir e arriscar ser tributado;

    4) Para que o amigo possa planejar uma boa compra, o primeiro passo é estabelecer o álbum desejado, a não ser que se pretenda comprar um álbum tendo por critério o menor preço. Em seu comentário infeliz, nosso amigo alega que a boa compra recomendada por Mr. Bravante apresenta ‘preços totalmente fora da realidade’. Para provar sua tese, ‘anônimo’ apresenta os preços de dois álbuns clássicos encontrados na CDUniverse, que variam na faixa de US$9.00 e conclui que fez uma boa compra. Ora, os dois álbuns apresentados por Mr. Bravante são recentes e seus preços na CDUniverse são, respectivamente, US$13.85 e US$16.75. Somando-se o valor do frete (US$7.99), temos US$38.59. Se formos gentis e fizermos o dólar a 1,70 chegamos a R$65,00 do ‘anônimo’ contra os R$70,00 de Mr. Bravante. Estaria ‘anônimo’ correto? Vejamos:

    5) É preciso considerar dois aspectos nesse processo: 6.1 – Nas encomendas por remessa postal comum, a tributação de encomendas até US$500.00 é feita através de amostragem. Se o amigo leitor der o ‘azar’ de ser ‘sorteado’ pela fiscalização federal, terá sua encomenda tributada em 60%. Os R$65,00 recomendados pelo amigo ‘anônimo’ passam para R$104,00, contra os R$70,00 recomendados por Mr. Bravante; 6.2 – Nas encomendas por remessa postal porta a porta (courier), não há amostragem. Toda remessa feita através de courier é tributada pela fiscalização federal (Imposto de Importação de 60%) e, em seguida, pela fiscalização estadual (ICMS de 18%). Nesse caso, os R$65,00 se transformam em R$122,00. Para quem joga dados, pode ser uma boa opção. Mas para quem não joga roleta, é bom saber se sua encomenda virá em remessa comum ou courier.

    Conclusões: 1) Nossa política democrática de permitir qualquer comentário, por mais desarticulado que seja, não significa que concordamos ou validamos as opiniões ali apostas; 2) Não recomendamos ao amigo visitante que compre um álbum de jazz simplesmente pelo preço, mas pelo real desejo de tê-lo e ouvi-lo; 3) Escolhido o álbum, não se precipite: pesquise, aguarde o preço cair – é terrível pagar 50 dólares por um álbum japonês e depois encontrá-lo por 10 dólares numa promoção; 4) Não recomendamos que o leitor corra o risco de ser tributado quando o preço no exterior for próximo ao preço no Brasil (como é o caso da recomendação de Mr. Bravante). A não ser que o amigo aprecie o risco ou tenha dinheiro sobrando.

    É simples e cristalino: você pode comprar os álbuns recomendados de Gary Smulyan no Brasil pagando R$70,00 sem qualquer risco. Ou pode importá-los por R$65,00, correndo o risco de pagar R$104,00 ou R$122,00.

    Boas compras!

    01/11/2007

    Elas também tocam jazz - Nisse Engström

    Sabemos muito pouco acerca dessa divertida pianista sueca. Das poucas informações de que dispomos, as melhores estão disponíveis no Svensky Visarkiv, um centro de música folclórica e jazz sueco. São de lá as informações sobre a faixa disponível abaixo, gravada por Nisse Engström em 1954 para a Metronome e a Caprice, com George Riedel (b) e Anders Burman (d). Temos notícia de que em 1956 Nisse esteve no Norrländska Jazzfestivalen, Suécia. Em 1957 aparece com seu trio no long play 9 Beats To The Bar, lançado pela Hollywood Records, de New York. Em 1982 andou gravando com o competente vibrafonista Lars Erstrand. Em 1997 estava tocando com o saxofonista Calle Lundberg, o contrabaixista Höddi Björnson e o baterista Björn Molinder. Até onde sei, Nisse está na ativa até hoje, tocando em Solnadals Vardshus e no Jazzschema, ambos na Suécia. Seu toque é de um swing quase ingênuo, com algum quê de Teddy Wilson, recortado por frases ágeis e debochadas que, guardadas as proporções de gênio, lembram certas brincadeiras de Fats Waller. Como a série Svensk Jazzhistoria não traz muita coisa sobre a moça, ficamos com aquele gostinho de ‘quero mais’. Caso algum abnegado visitante conheça Nisse, agradecemos por mais informações e gravações. Até o mês que vem!

    Groovin Doctor.mp3